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Postado em 31 de agosto de 2005, quarta

Mil Homens

Onde está a Escola Doméstica havia, no meu tempo de menino, uns alicerces escuros e povoados de mato. Era ponto de briga infantil e do amor adulto. Hoje o amor não escolhe ponto e tem a cidade inteira por mensagem. E é assim mesmo com a briga.

No governo Ferreira Chaves, 1914 – 1930, construíram a Escola Doméstica. Antes, durante um ano, houve uma espécie de armazém com curiosidades enviadas ao Governador pelos amigos. Era tanta curiosidade que o salão encheu e a Vila Cincinato, hoje Potiguar, não cabia os testemunhos de amizade. Um desses presentes era uma onça. Uma onça pequena. Não muito pequena, mas de garras prontas, rosnando sempre, fazendo caretas e tufando os bigodes quando alguém se aproximava da jaula. Um dia a onça se soltou. Imagem o pânico. Polícia procurando, pavor, o medo se espalhando como um mau cheiro. Finalmente descobriram que a onça estava pouco distante da jaula, escondida, acoroada num bosquezinho, dentro das divisões do alicerce. Fez-se uma expedição.

Um camarada forte, alegre, de imenso bigode branco, com um chapéu de palha de mandarim, irradiando simpatia, naturalidade, acompanhou a expedição. Chegou, mostraram a onça, franzindo o focinho, rosnando. O camarada sorriu, deu uns passos, rindo:- isso é lá bicho para dar trabalho a homem!...Foi e grudou, com a mão a onça pelo pescoço, como um gato desmoralizado. E levou-a, suspensa, rosnando, humilhada, rebaixada ao posto melancólico de animal doméstico. A oncinha arranhara-o nos pulsos e no braço, mas o camarada, sem perder o riso, levou-a sacudindo-a dentro da jaula. Perguntei, suando de emoção entusiasta:- quem é, hein, quem é? – Não conhece? Antônio Milhomem! Era um velho amigo de meu Pai. Ia à nossa casa. Foi o meu primeiro herói. O homem forte, simples, natural, sereno, na convicção tranqüila da coragem, da confiança pessoal.

No meu tempo não havia esse herói imaginário de agora, mentira de desenho, Super-Homem, Capitão Marvel, gente que apanha avião no ar e bota navio debaixo do braço. Os heróis eram raros, mas verdadeiros, de carne e osso, valendo no heroísmo relativo mais verídico.

Antônio Milhomem faleceu a 12 de Janeiro de 1934, com mais de 70 anos. Era uma fisionomia humana e sugestiva que ficou na minha memória.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 14 de agosto de 1947

 
Postado em 24 de agosto de 2005, quarta

Jornalistas velhos...

A Associação Norte Rio Grandense tem todos os elementos para evocar as fisionomias dos velhos colegas de outrora.

Não é compreensível que continue esse silêncio dado a morte civil, a segunda e pior morte que é o olvido aos jornalistas do passado, iniciadores das atividades da Província e mantenedores do espírito livre de propaganda e de discussão, de exame e de crítica nos limites espirituais da época. Com imprensa, há cento e quinze anos, há necessariamente muito nome digno de uma simpatia e merecedor duma ressurreição.

Para que alguém se detenha para estudar essas sombras tão poderosas e temidas outrora, acompanhar-lhes vida, ação e pensamento, fazer viver o ambiente, com as idéias vitoriosas do tempo, seus amores e paixões, é preciso existir um liame prendendo o morto ao vivo, um sutil e resistente fio moral que reúne na mesma afetuosa lembrança os desaparecidos elos da mesma cadeia de força e de coragem cultural e política, numa continuidade de esforço. A Associação Norte Rio Grandense de Imprensa, que assisti fundar e assinei sua ata inicial no salão da saudosa A REPÚBLICA, é sociedade de classe para defender os companheiros vivos e também um instituto de cultura para estudar os confrades mortos.

Não merece nome de associação a que fixar um problema apenas por um ângulo. Como não há corpo unidimensional, é impossível que a memória não traga até a própria ação, nomes, datas, gestos, movimentos daqueles que constituíram a forma vivente da classe, sua velocidade inicial; os que começaram andando, sonhando, sofrendo no caminho que nós continuamos pisando em cima de xique-xique e mussambé, flor macia de espirradeira e bordos agudos de caco de vidro. No meio de tudo há sempre alegria, entusiasmo, esperança, fé. Não somos maiores nem menores que os antepassados ou os contemporâneos, patrícios e estrangeiros. Somos intrinsecamente idênticos. Reagindo na mecânica dos mesmos interesses, aquecidos por um calor mais ou menos intensivo de idealismo.

A melhor, a mais profunda, natural e positiva maneira de provarmos a posse de uma consciência na atividade exercida é a memória, a homenagem aos PRIMEIROS, aos VELHOS, as águas que vinham de nascente e de que somos a foz antes da dispersão no oceano sem praias...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 13 de agosto de 1947

 
Postado em 17 de agosto de 2005, quarta

Sensacionalismo da banalidade

Toda a vez que se pretende diminuir a exploração da notícia sensacional em matéria criminosa há uma tempestade.

Diz-se que há um assalto à liberdade no registro do hediondo e do repugnante. Não é surpresa nem descoberta mirabolante a sugestão desses assuntos para a proliferação do crime por um dos elementos mais poderosos e psicologicamente irresistíveis:- a força da imitação. Fotografias minuciosas de cenas de sangue, registros pormenorizados de violências e brutalidades, aparatosa encenação de fotógrafos e repórteres, dedicando-se páginas inteiras de revistas e jornais a um ladrão, um gatuno, a um malandro valentão fazem de Zé da Ilha, Dois-e-meio, Bicudo, glórias vivas atiradas à notoriedade com o lastro de notícias, telegramas e filmes. Já não cito aqui os nomes do pé, maravilhas de todas as cores, cuja glória, financiada tecnicamente, coloca seus cultores na fila máxima das atividades admirativas.

Sabemos muito bem que é uma evidência de círculo vicioso. A popularidade é mantida pela propaganda e esta é sustentada pela popularidade. A função justifica o órgão. Mesmo que essa função seja indispensável é desculpável porque é popular. É a lógica dos-que-gostam. Com papel caro, tinta caríssima, mão de obra de altura astronômica, uma notícia extensa sobre crimes, alastrando-se em colunas e colunas, custa bastante. Mas o público quer esse acepipe ácido, indispensável ao seu estômago. O jornal serve o que a fome coletiva exige.

Curiosamente, em todos os congressos jornalísticos do mundo, em todas as sessões de clubes, associações, institutos, sociedades e círculos jornalísticos de qualquer parte insular ou continental, todos, do diretor ao revisor, do linotipista ao pessoal da distribuição e gerência sabem, defendem e declaram que o Jornal é, antes de tudo, acima de tudo, no fim de tudo, um elemento de educação, um auxílio à educação. Se estamos sem contrariar, sem corrigir, sem desviar, sem opor à corrente humana a crítica, o reparo, a sugestão, o esclarecimento, deixando que se processe o deslocamento da massa pela sua própria impulsão desagregatória, onde anda o princípio de educação sob cuja égide vive a imprensa?

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 31 de julho de 1947

 
Postado em 10 de agosto de 2005, quarta

Inquietação literária

Escrevendo de Lausanne para um amigo, Henrique Castriciano acusava a inquietação do letrado e do semi-letrado como responsável pela confusão dos domínios educacionais. Há, para quem recebe o primeiro verniz literário, a falsa sensação de superioridade, uma unção distanciadora do ‘comum’ e do ‘habitual’. Julga-se pertencer à uma classe nova, privilegiada, distinta das demais, podendo ostentar as insígnias de posto indiscutido e real.

H. Castriciano não aplicava a teoria nesse setor mas na displicência, na ausência de espírito público de colaboração, na preguiça com que assistimos as grandes iniciativas nascerem e testemunhamos sua morte sem um gesto de auxílio.

Para nós o Governo deve fazer tudo, prever tudo, inesgotável de recursos e de espírito divinatório, chegando a prever o que nos cabia realizar e defender.

Essa inquietação explica pela fragilidade de sua base cultural, o instinto crítico insopitável, esse prurido de expor, revolver, examinar o esforço alheio mesmo sem a mais longínqua possibilidade de corrigi-lo ou melhorá-lo. Não se trata de remendão dizendo seu reparo ao quadro de Apele mas de tentativa constante desses juízos. O remendão grego, que Plínio registrou na sua História Natural, 35, 36, calou-se ouvindo a admoestação do pintor. Suponhamos que continua-se falando e criticando do sapato para cima até o cucuruto da cabeça, inconsciente e obstinado na liberdade do comentário dispensável, inútil, ridículo. Essa atitude é um fruto da inquietação literária que, como vinho novo, sobe depressa à cabeça quando esgotada a primeira taça.

A felicidade da improvisação crítica sem os fundamentos da cultura mas apenas como expressão do gosto pessoal, da sensibilidade individual, da maneira de ver do leitor, poderá constituir critério apreciativo, fórmula valorizante da obra literária. Se há quem negue, a crítica concebida nos modelos da invenção e da mobilidade mental...

Esses comentários vêm com achega no momento em que se discute a maior ou menor influência do mestiçamento nos processos da aculturação brasileira. Dou ao mestiço como responsável por esse método de maravilhosa rapidez aquisitiva, ligação, aglutinamento de todos os valores, amalgamados, confusos, úteis e inúteis ao conhecimento, à ciência que é a sabedoria serena, como dizem os chineses. A inquietação literária corresponderá ao que se chama ‘sangue novo’ na etiologia social e popular.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 28 de julho de 1947

 
Postado em 3 de agosto de 2005, quarta

Mestre Afrânio

Sócrates negava o poder da Morte. Para ele a verdadeira Morte era o Esquecimento. A morte pode retirar a criatura da vida e colocá-la, inteirinha, dentro de um pensamento pelo milagre da saudade e pelo processo da memória. O esquecimento envolve o nome num manto de cinza. E cada dia nova chuva de cinzas cai do céu, reforçando as camadas que separam quem viveu dos que vivem.

Não, estou assombrado com o meio silêncio, as primeiras cinzas, sobre o túmulo que se abriu em janeiro para guardar Afrânio Peixoto, meu velho amigo professor de animação e estímulo, Mestre Afrânio como sempre o chamei.

Professor de Higiene e de Medicina Legal, ‘emeritus’ em várias Universidades, poeta, crítico, romancista, orador, ensaísta raro, foi, acima de tudo, um ‘scholar’, um letrado, um ‘clérigo’, como se dizia outrora. Teve a ciência diluída, pronta, apta ao serviço imediato da cultura, a palavra fácil, colorida, vibrante, capaz de retirá-la dos escaninhos do cérebro e acudi-la, como um relâmpago, amplo e luminoso, nos olhos de todos, já materializado, tornado matéria rutilante.

Sabia de tudo, entendia tudo, pensara em tudo. Tinha um raciocínio para todas as faces do problema humano. E também a coragem de dizer.

Teve o heroísmo de ir contra a corrente, recolocar o homem que a adoração vai transformando em tabu, na posição lógica e terrena de apreciação e discordância. Mostrou um panorama do movimento bandeirante noutro ângulo da visada, diverso do comum e do que se tornou oficial. Evidenciou que a sociologia de Euclides da Cunha, o pensamento, o protesto euclideano, é inteiramente distanciado das miras onde o imobilizaram. Euclides, tribuno do povo, elevou o jagunço de Antônio Conselheiro para o plano heróico, estudando as raízes psicológicas de sua vitalidade moral, mantidas pela austeridade espartana da alimentação e pelo esforço diário no trabalho, resignação e vontade viva em face dos elementos contrários.

Afrânio Peixoto, não somente era e seria bastante, um grande professor, digno de Oxford e de Harvard, um estudioso de História, Folk Lore, o primeiro camoniano do Brasil, mas exerceu a profissão com alegria de servir e de criar inteligências, determinando o hábito da observação e da documentação pessoal. Ironista sutil, imenso coração, viveu na intensidade que esperava de Deus.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 16 de junho de 1947

 

Cascudo iniciou-se no jornalismo em A Imprensa, jornal de propriedade do seu pai...

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Digitação e revisão das Actas: Daliana Cascudo
Fotos: De Cascudo - Acervo do Memorial Câmara Cascudo;
Máquina de escrever, placa, casa de Cascudo e fotos eventuais - Sandro Fortunato;
Fotos que ilustram os textos - Canindé Soares.