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Postado em 29 de junho de 2005, quarta

Olhos da cidade...

Uma cidade olha para os horizontes livres, para a paisagem bonita ao redor, com os olhos dos miradouros. São lugares abertos, mirantes com pérgolas, com alguns bancos, um recanto oferecido para a visão panorâmica dos arredores citadinos.

Quando uma cidade cresce, subindo e descendo as colinas, cobrindo com o casario as eminências e declives, é natural que o habitante pobre ou rico tenha o direito a uma impressão de beleza, tanto mais rara quanto maior a cidade se torna.

Os moradores ricos escolhem os pontos mais pitorescos e erguem as residências olhando o rio, o mar, a montanha, o infinito. E chamamos a esse elemento A VISTA, isto é, OLHOS. Dizemos:- a casa de fulano tem uma vista lindíssima.

Aqueles que não têm dinheiro ficam obrigados a dispensar a vista sobre os aspectos sugestivos da cidade.

Atualmente o direito humano vai alcançando essas prerrogativas que eram privilégios alheios. O morador mais pobre está pedindo também que a Cidade lhe dê uma Vista, um ponto bonito, uma alegria visual, interrompendo a melancolia do labor diário, do trágico-cotidiano, como dizia Maeterlinck.

A valorização dos terrenos ergue a vaidade humana pelas orelhas e a leva até perto das estrelas. Pelo gosto natural da burguesia não havia jardim público nem parque, nem alameda, nem miradouro. Tudo era terreno-para-construir. Interessa apenas o individual, o dependente da vontade personalíssima. Quem irá lembrar-se do direito de alguém ter diante dos olhos uma paisagem ridente ou um muro banal?

Essa possibilidade está se firmando como um direito natural, uma das prerrogativas de qualquer criatura humana.

As cidades começaram a oferecer aos seus moradores as perspectivas indefinidas da paisagem circunjacente. São os Miradouros.

Diga-se que o Miradouro não é um direito oferecido ao turista, ao viajante, ao estrangeiro, mas ao homem da cidade, ao morador, ao habitante, o elemento diário e comum.

Possa esse direito afirmar-se ao lado do patrimônio natural da cultura, como um facto visível e próprio da cidade moderna.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 5 de janeiro de 1947

 
Postado em 22 de junho de 2005, quarta

O luto foi branco?

Antigamente o luto era vestir-se uma pessoa de branco ou de preto?

O luto era vestir-se de branco.

O branco era a cor da homenagem aos Mortos. Em Portugal o uso se manteve por séculos e séculos.

Em Castelha o luto era a roupa negra. Como havia estreita e ativa comunicação entre os dois países, com marcada influência castelhana, a moda começou a dominar os portugueses. Mas exigiu centenas de anos para que o velho costume desaparecesse.

A rainha Dona Leonor Teles, em 1383, usou vestido negro pela morte do seu marido, El-Rei D. Fernando.

Em Toledo, nas exéquias, o rei de Castelha, genro do morto, e sua mulher, vestiam preto, mas todos os fidalgos portugueses compareceram de branco.

O vestido negro dizia pano de doo, de dó, dolum. O luto branco era o burel, de linho alvo. Os castelhanos usavam o doo e os portugueses o burel.

No enterro Del-Rei D. João I, em 1433, o rei D. Duarte assistiu de doo, negro. Seus irmãos, os infantes, de burel, branco.

Assim, no século XV ainda o modo do luto negro estava indecisa na Corte portuguesa, entre os próprios membros da família real.

Em 1521, Dia de Santa Luzia, 13 de dezembro, morreu Dom Manuel o venturoso, rei que vira o caminho para as Índias e o achamento da Ilha de Vera Cruz, povoada de ibirapitangas preciosas. O corpo do rei foi transladado com dois mil cavaleiros e seiscentas tochas. O povo acompanhou no pranto como se usava.

Um poeta da Corte, Garcia de Resende, achou que as lamentações não correspondiam ao grande soberano. E sabem por quê? Porque o burel, isto é, o luto branco, tinha sido defendido (proibido) e só podia usar o doo, luto negro, tal qual em nossos dias.

Na estrofe 260 da MISCELANEA, informa o poeta:

Vimos gram pranto fazer
pelos Reis quando morriam;
burel, grande doo trazer,
causa muy digna de ser
pois tam gram perda perdiam.
Vimos burel defendido,
e vimos pouco sentido
um Rei que depois morreu,
porque o doo se perdeu,
foi também nojo perdido.

Está claro que a mágoa do povo era a perda de uma tradição imemorial, obrigada pelas leis, leis contra o uso, fonte delas.

Apesar dessa legislação, no século em que o Brasil foi colonizado, o luto branco continuou.

Vestígios dessa tradição ainda são visíveis nos usos e costumes no interior do Brasil.

Luís da Câmara Cascudo
A República, 17 de abril de 1945

 
Postado em 15 de junho de 2005, quarta

Sapato emborcado

Sancho Pansa não acreditava nas bruxas, mas tinha medo delas. Yo no lo creo em las brujas, pero que las hay, las hay, dizia.

Nós tão civilizados que estamos destruindo um Mundo para construir outro à nossa imagem e semelhança, estamos fiéis à longa noite do Passado. Milhares de anos passaram por nós. Civilizações, doutrinas, religiões sucederam-se. Nós somos um resumo dessa sucessão de Mundos desaparecidos. De todos guardamos alguma coisa. Resquício, traços. Superstições. A superstição é um vestígio de uma religião que morreu. Ficamos com um ou outro elemento, como se conservássemos folhas secas em recordação de uma época que passara em nossa lembrança. Nem tudo morre, dizia Horácio, há dois mil anos. Muita coisa resiste ao que chamava Ferreira Itajubá, a cheia assoladora dos anos...

Nós ficamos com gestos, idiossincrasias, recalques. Não sabemos porque. Não imaginamos a força do subconsciente, dominador, na voz surda, irresistível, do instinto. Um desses gestos incontidos, maquinais, alheios à vontade disciplinadora, é repor na posição natural o sapato que se emborcou. Por quê? Ninguém sabe. Apenas não é bom o sapato emborcado. E por que não é bom? E por que essa pressa com que a mão cuidadosa se estende para repô-lo onde e como devia ficar?

É um vestígio de organização social milenar. Todo o Mundo que ambientava o conceito sociológico, psicológico, político, religioso, concordante, desceu para as profundas do abismo da História. Resta um ou outro motivo, boiando a tona da civilização do século XX.

O sapato emborcado é um desses derelictos sem rumo, encalhados no automatismo de nosso mecanismo nervoso. A sandália, o sapato, a bota é a imagem do pé. O pé, fundamento, sustentação e base do corpo, está com a palmilha para baixo quando estamos na vertical. Quando está horizontal, estamos nós deitados. E se a palmilha estiver para cima em que posição estará o corpo? Estaríamos com a cabeça para baixo.

Vindo das civilizações orientais para o Império Romano, houve, durante séculos, o martírio da crucificação e da penduração pelos pés, com a cabeça para baixo. Era a morte oprobidosa, humilhante, a degradação. Havia o suplício dos pobres, degolação pela espada. A degolação pelo machado era a dos pobres, criminosos comuns.

Jesus Cristo foi crucificado com a cabeça para o alto, entre dois ladrões. A cruz era suplício dos mais humildes e resteiros condenados.

Com a cabeça para baixo ainda era situação mais inferior aos olhos fiscais do direito consuetudinário.

Como o criminoso havia sido supliciado com a cabeça para baixo, no lugar dos pés, punham-lhe na sepultura (quando a família ou alguém requeria o cadáver abandonado) o calçado do uso, mas na posição invertida, emborcado. Assim foi martirizado São Pedro, o primeiro Papa.

Sapato emborcado era sinal desse opróbio horribilíssimo. Quando, casualmente, uma sandália virava para o chão, imediatamente o cidadão romano a desvirava, afastando o agouro...

Hoje, sem se saber porque, ninguém encontra sapato emborcado que não o revire, dizendo, abaixo:- Deus te livre...

Esta é a História do sapato emborcado. Apesar de tudo nós somos como o velho e querido Sancho Pansa:- temos medo do que dizemos não existir...

Luís da Câmara Cascudo
A República, 31 de dezembro de 1944

 
Postado em 8 de junho de 2005, quarta

O que quer dizer “Acta Diurna”?

Perguntam a mim porque dei semelhante título a esta secção. Que quer dizer ACTA DIURNA?

ACTA DIURNA era uma espécie de jornal diário, uma folha onde os acontecimentos do dia eram fixados pelas autoridades de Roma, para conhecimento do povo. Pregavam-na a uma parede num dos edifícios do FÓRUM. No ano 131, antes de Cristo, já existia a ACTA DIURNA, informando ao cidadão romano as novidades ou diretivas governamentais.

Júlio César, cinqüenta e nove anos antes do nascimento de Cristo tornou a ACTA DIURNA oficial, de aposição obrigatória num determinado logradouro público.

Conservo o título em latim. Por isso aparece o ACTA com a segunda consoante do alfabeto. ACTA significa, no latim, ações, obras, feitos, façanhas. DIURNA é o que se pratica sob o sol, no espaço de um dia, ou diariamente.

Suetônio, que bem conheceu a ACTA DIURNA, dizia-a efemérides diárias, o registro dos sucessos urbanos, políticos e administrativos, sociais ou literários. A minha é uma ACTA DIURNA que recorda o pensamento que presidiu meu dia. Fixo a minha impressão diária sobre o livro, uma figura ou um episódio, atual ou antigo.

Dei-lhe batismo latino porque a intenção cultural é honrar o passado, nas suas lutas, alegrias, tragédias e curiosidades. E, se matéria nova aparece, comentada, é ainda o desejo de conservá-la no tempo para os olhos amigos de alguns leitores fiéis, nas páginas tradicionais dA República, o mais velho dos jornais conterrâneos.

Luís da Câmara Cascudo
A República, 03 de agosto de 1943

 

Cascudo iniciou-se no jornalismo em A Imprensa, jornal de propriedade do seu pai...

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DDigitação e revisão das Actas: Daliana Cascudo
Fotos: De Cascudo - Acervo do Memorial Câmara Cascudo;
Máquina de escrever, placa, casa de Cascudo e fotos eventuais - Sandro Fortunato;
Fotos que ilustram os textos - Canindé Soares.