| Postado
em 23 de novembro de 2005, quarta |
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O
direito de não ouvir

Há
em todos os países do Mundo a Legislação
do Silêncio, defendendo a população
dos ruídos inúteis, do barulho indispensável,
das sonoridades discutíveis.
Médicos
e educadores sabem o que vem a ser um ruído,
um rumor, um barulho e sua influência no sistema
nervoso infantil e adulto. Envenena-se pelo rumor como
pela via oral, engolindo-se o tóxico. O rumor
gasta a energia, dispersa a atenção, deseduca
o sentido, exaspera a percepção, desvia
a mentalidade. Prefeitos, sanitaristas, educadores,
psiquiatras conseguiram dos Governos essa Legislação
do Silêncio, obrigando, democraticamente, a maioria
respeitar a unidade, ou essa unidade acatar a decisão
da maioria quando fundamentada em lógica científica.
Em qualquer cidade-grande, dessas que Verhaeren denominou
“tentaculares”,
há uma série de obrigações
impostas pelo dever de respeitar-se o silêncio,
ou prazer do próximo... Não é possível,
num apartamento, abrir-se o volume de voz a um rádio
e deixar um samba abalando todo o edifício sob
pretexto de que o dono do aparelho é livre e
não tem contas a prestar com as orelhas alheias,
não é lógico que toda a gente se
interesse pelo mesmo programa e procure contagiar essa
simpatia pelo estridor instrumental ou vocal. A popularidade,
cada vez maior do rádio, a quase obra de possuí-lo,
não implica numa proclamação de
direito sobre o sossego ou idiossincrasias circunvizinhas.
Um
amigo da rua Princesa Isabel não podia conservar
o mesmo timbre de voz graças ao berreiro do rádio
parede-meias. Por que você não pede para
o seu vizinho gozar o rádio sozinho, sem esse
fervoroso entusiasmo comunicativo?
-
Não peço, não senhor. Vingo-me.
Quando ele quer dormir, eu ligo o meu rádio para
os programas mais idiotas e deixo gritar a vontade...
A
função educadora do rádio, nesse
caso, é diametralmente oposta a uma finalidade
elementar de bom comportamento. O melhor é ter
um rádio e ouvi-lo sempre. Ouvi-lo em nossa sala
sem a participação dos outros que, podem
ou não, estar em momento de boa recepção
mental. Digo essas coisas em tese generalisadíssima.
Os meus dois vizinhos são modelos de possuidores
de rádios. Sei que existem os aparelhos porque
vejo a denúncia nas antenas.
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 11 de outubro de 1947
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| Postado
em 16 de novembro de 2005, quarta |
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Me
disseram...
Permito-me.
Ó manes de Castilho Antônio e do finado
Candido de Figueiredo, dar o título acima ser
agravo premeditado aos policiadores pronominais. Uma
frase muito comum é:- Não sei bem... me
disseram.
Serve
de habeas-corpus à vaguidade da fonte originária
informativa e dentro dessa irresponsabilidade espolinha-se,
livre, a imaginação solta do narrador.
É pois, do domínio psicológico,
um elemento de clara e nítida força.
Voltaire,
quando lhe perguntavam o princípio de uma notícia,
respondia:- Não estou certo porque me disseram...
Entretanto
esse “me-disseram”
é o agente transmissor de 99% das notícias
do Comum, reportagem dos jornais-falados cotidianos,
mantidos nas ruas pela força redatorial do anonimato.
Sustentados pela pujança seivosa da inventiva
sem possibilidades do ônus da prova. Ninguém
exige a documentação nem as credenciais
do depoente interessado na divulgação
gratuita. E continua o boato.
O
veículo alaga tão materialmente o ambiente
com os informes sem carimbo, que as imagens da replecção
denunciam o aspecto vivo:- a rua está cheia...
a cidade está cheia...
Cheia
de que? Cheia do “me-disseram”...
Esse
elemento – um processo de poderosa intensidade
social para retardar, acelerar, deter nomes, famas,
desejos, sucessos. Estou traduzindo apenas a ária
de Demi Basílio, a ária-de-calunia, no
Barbeiro de Sevilha. Mas o “me-disseram”
pode ser favorável, simpático e mesmo
bajulativo. É possível determinar a auréola
doirada da Fama sem a necessidade da produção
ou mesmo a função humana o trabalho intelectual
quando o dístico haloador pertence à classe
dos letrados. Possível dispor, pelo “me-disseram”,
um cenário que dispensa o ator, esforça-se
muito. Basta aparecer e receber as palmas. Já
se sabe que é gênio sem precisar um minuto
de comprovação. Nas horas vermelhas de
uma agitação revolucionária, o
julgamento de vida e morte depende unicamente desse
método sem identificação de culpa
e prêmio.
Espalha-se
o rumor e esse rumor cria a figura do delito ou da glória
individual sem que a vítima ou herói haja
merecido a coroa para a cabeça ou a corda para
o pescoço.
Me
disseram que era assim...
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 14 de outubro de 1947
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| Postado
em 9 de novembro de 2005, quarta |
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Vespúcio
não subiu o rio Assu
Depois
da publicação do Falsos Precursores
de Cabral, do historiador Duarte Leite (1922) não
apareceu resposta para defender a prioridade espanhola
no descobrimento do litoral brasileiro. Diego de Lepe,
Pinzon, Alonso de Hojeda continuam chegando à
terra do Brasil para quem não leu o monumental
trabalho do grau e pesquisador português. Não
lhe deram resposta. Duarte Leite exibira documentação
excepcionalmente valiosa pela interpretação
científica excluindo, prática e realmente,
as viagens dos castelhanos ao Brasil antes de 1500.
Vamos convencionar que Alonso de Hojeda tenha atravessado
a equinocial e molhado a proa de sua nau nas águas
barrentas do rio Assu em junho de 1499. Estou certo
que não se deu tal episódio mas combinemos
na impossível veracidade do facto. A bordo da
nau de Hojeda vinha o florentino Américo Vespúcio,
a mais feliz e discutida figura de aventureiro de que
há notícia naquele final do XV e começo
de XVI século.
Este
Vespúcio que não descobriu coisa alguma
na sua vida deu nome ao continente inteiro. Colombo
e Pedro Álvares Cabral não tiveram essa
honra. Vespúcio é oficialmente o pai de
uma criança inteiramente estranha às suas
atividades. Aqui no Rio Grande do Norte há uma
lenda, teimosa como jumento andaluz, dando mestre Vespúcio
como descobridor do Apodi, imaginem, nem mais e nem
menos que uma subida pelo rio Assu e fundação
de feitorias lá em cima! Não há,
naturalmente, uma só letra de verdade nessa tradição
oral, invenção pura, mas sempre citada
como verdadeira. O próprio Vespúcio escreveu
quatro cartas, Lettera, aos amigos, contando
as façanhas. Na segunda das Lettera
conta que viu terra alagada e baixa, sulcada por grandíssimos
rios que a inundavam. Debalde tentou Hojeda abordá-la.
Não conseguindo, levantou âncoras e velejou
entre levante e sudeste pela costa adiante, isto é,
para o sul e por espaço de quarenta léguas
tentaram desembarcar, mas foi tempo perdido. Estou copiando
as frases do mestre Vespúcio na segunda Lettera.
Onde está a documentação de Vespúcio
subindo o rio Assu? Onde ficou registro da fundação
e alguma coisa nessa parte norte rio-grandense onde
o florentino não pode pisar? Não era tempo
de acabar com essas visagens do outro tempo? A História
é uma senhora extremamente séria...
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 13 de outubro de 1947
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| Postado
em 2 de novembro de 2005, quarta |
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Uma
conspiração visível
Estou
lendo no Digest of the Americas, da Andrux
Press, que o geógrafo Prof. Hans Ahlman afirma
que desde 1900 a temperatura do Ártico subiu
dez graus centígrados, elevando-se o nível
das águas do oceano e os gigantescos glaciares
se dissolvem como manteiga em chapa quente.
No
centro d’África
os lagos secam e, na parte ocidental, desapareceram
nascentes e o imenso Lago Vitória desceu dezessete
centímetros nos últimos dez anos.
O
professor Hans Ahlman apela para uma campanha de estudos
de caráter internacional. Trata-se de conspiração
real, absoluta, ostensivamente feita aos olhos dos sábios,
contra a integridade, equilíbrio e perpetuidade
do Homem na Terra.
A
circulação das águas nos lençóis
subterrâneos será multiplicada pelo acréscimo
desses volumes monstruosos e como processo fixar-se-á
apenas em um hemisfério, ou melhor, numa região
determinada cuja coordenada geográfica não
posso precisar, deduz-se que haverá um desequilíbrio
da massa terráquea, desequilíbrio cujas
proporções são incalculáveis,
imprevisíveis e cataclísmicas.
Até
aqui estou comentando o sábio professor da Suécia,
Hans Ahlman. Não vou adiante. Fico, entretanto,
perguntando a mim mesmo porque essa conspiração
dos elementos naturais contra o Rei da Criação,
o Homo Sapiens, o Bicho Homem, todo poderoso criador
da ciência e da técnica. Certamente os
elementos realizaram um congresso e os ‘leaders’
discursaram sobre o assunto milenar. Há milhares
e milhares de anos que o Homem se apossou da Terra e
disciplinou, dentro do possível, os elementos
naturais, as forças vivas da Natureza, dispondo-as
ao seu serviço. Esgotou mares, furou montanhas,
desviou rios, amordaçou cachoeiras, arrasou serras,
trepou colinas, cavou mistérios. Andou debaixo
da terra e na estratosfera. Os elementos consentiam
em tudo, confiantes no papel de uma colaboração
para a Felicidade, a Paz no Trabalho, a Harmonia, a
Alegria de viver e de ser útil.
Devem,
os elementos, ter chegado a essa conclusão: foram
utilizados para o egoísmo e para a morte. Quererão
expulsar o homem da terra em que ele é hóspede
e se julga dominador?
Luís
da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 1 de outubro de 1947
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