Postado em 26 de outubro de 2005, quarta

Comerciantes... historiadores

Nunca mais tive o prazer de ler um livro de recordações e de notas escritas por um comerciante. No século XIX tivemos alguns cheios de informação preciosa. Não é possível ver-se o panorama da História Brasileira das primeiras décadas do século XIX sem as páginas de Henry Koster, de John Luccok.

Esses depoimentos dizem o país pela voz estrangeira, alheia ao sangue e sem as concordâncias psicológicas que em nós agem como determinantes fisiológicas. Pela situação, o comerciante era um informador social valioso. O contacto com as classes diversas, o estudo nato da mentalidade do ‘freguês’, os processos incontáveis para a reação financeira do mercado, a compreensão, o espírito de assimilação para os objetos novos, o poder aquisitivo do aparelhamento cada ano renovado pela mecânica, a curiosidade de provar e conhecer quanto apareça constituem os traços fisionômicos da massa humana que o olho do comerciante demorará em analisar e reter.

A maioria dos comerciantes foi atirada ao balcão, como se dizia outrora, ainda menina, tendo no sangue os mesmos desejos de empinar corujas, de banhos na maré, de caju nos taboleiros e de jogar castanha. A posição, atrás do balcão, defendia a criança, como a promovendo ao respeito e a majestade do trato com as moedas prestigiosas e, ontem, manejar as primeiras máquinas registradoras, engolindo o dinheiro e descomendo um papelzinho impresso.

O balcão era o observatório e raro comerciante ficou destituído de finura para dizer e pormenorizar as características dos fregueses, as manias e formas normais de cada um aparecer, pedir, pagar, reclamar, ir-se embora. Filho do comerciante, de velho comerciante, conheci os graúdos e os pequenos. Os grandes exportadores da Rua do Comércio, fornecedores de navios, recebendo em grosso. E conheci os pequenos, distribuidores, lojistas, donos das casas que espalhavam a mercadoria nas mil mãos do povo. Havia outra classe, a dos bodegueiros, a mais curiosa e rica de experiência, em contacto imediato com o povo e suas atividades.

Conheci negociantes excepcionalmente espirituosos, alertas, cheios de remoques. Meu Pai ainda é lembrado. De raras letras e muita vivacidade, chegou a primeira fila. Foi o único comerciante que manteve, sem interesse, doze anos, um diário. Ele e seus colegas sabiam e sabem a História viva. Mas não a escrevem...

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 30 de setembro de 1947

 
Postado em 19 de outubro de 2005, quarta

Para voltar à fonte

La Gazette des Letres de Paris publica uma pequena carta do Senhor Louis Perche sugerindo um prêmio de 30.000 francos destinados a um escritor do Perigord residindo em Paris para que visite o Petit Pays e possa revigorar as forças criadoras no contato da terra Natal. Como o processo de escrever não é exclusivamente a dança dos dedos na máquina ou o impulso da caneta automática, mas a visão dos elementos inspiradores ou sugestionados do pensamento criador, esse prêmio anuncia verdadeiramente o romance mais vivo e mais humano porque é um regresso às fontes da experiência da cidade grande com sua batalha decepcionante e suas glórias melancólicas.

O Sr. Louis Perche tem toda razão. É o mesmo problema em qualquer parte do mundo. O provinciano leva para a capital um material acumulado e complexo, que é usado em cessar. Confunde-se mesmo o realismo da lembrança com a transfiguração do possibilismo. As figuras e cenas evocadas vão passando e o suprimento é feito pela imaginação.

Certamente há outro motivo mais urgente e mais lógico. É a necessidade de descentralização intelectual da capital maior. O macrocefalismo administrativo absorve as forças vivas e fixa pelo clima julgadamente promissor a ilusão do conforto para o escritor. Fogem todos para a cidade, dizendo a frase comum de que a terra grande é o cenário indispensável para o seu talento. A província, com o pauperismo financeiro e a incompreensão dos conterrâneos, que o hábito da amizade banaliza o escritor, não promete senão a relativa tranqüilidade e a renúncia diária aos vôos maiores. Todas as águias não admitem o sacrifício das asas, e a possibilidade de torna-se ave de galinheiro. E a cidade vai obrigando esses sonhadores a um parasitismo econômico, a uma subalternidade funcional desmoralizante, imposta cruelmente pela vida áspera e tumultuosa. A impressão é que o talento não justifica o baixo preço de seu emprego e as humilhações sucessivas que não são a etapa da adaptação social.

Para cada vitorioso há noventa que partiram o bico querendo cantar e fazem na cidade o que não julgavam fazer na terra pequena da província.

Um prêmio que trouxesse o provinciano para rever sua terra, seria uma lição prodigiosa de amor. Das promessas da cidade estamos fartos de saber que são mentiras.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 19 de junho de 1950

 
Postado em 12 de outubro de 2005, quarta

Nossos Irmãos, os Índios

Ninguém pediu minha opinião sobre o serviço de proteção aos índios mas estou convencido da espontaneidade da opinião pessoal. Voto contra.

O índio deve ser deixado em paz. Deixado na sua vida sem problemas maiores e nem as misérias funcionais da nossa civilização. Não abandonamos os nossos irmãos índios, mas defendemos sua felicidade que terminará desde que comece a conhecer o progresso e a beleza da vida atormentada.

Devemos fixar uma linha intransponível entre os terrenos nacionais. Pena de morte a quem violasse o território indígena. Basta a lembrança de um povo feliz para trazer um pouco de felicidade aos que não a podem ter, civilizados demais por fora e bárbaros demais por dentro.

Que vamos dar aos nossos irmãos indígenas em troca de sua liberdade, de sua livre movimentação, de sua existência sadia, primitiva, caçando, pescando, dançando, cantando, brigando sob as estrelas e a luz do sol de sua tradição milenar?

Não temos nem o necessário para atender as exigências da população civilizada. Estamos num regimen atordoador no domínio da produção. O custo de vida é vertiginoso, imprevisto e misterioso, como um disco voador. Os problemas sanitários e educacionais começam apenas timidamente. A engenharia sanitária iniciou sua campanha que durará dezenas de anos para tornar confortáveis pequenas áreas demográficas. Uma política delirante e criminosa de centralização asfixia lentamente as províncias brasileiras. O êxodo do trabalhador rural é diário. As zonas das futuras searas são virgens. Os vales úmidos apodrecem e o Rio de Janeiro cada vez mais ergue seus arranha-céus e grita o dogma mentiroso de que não haverá salvação para fora de seus muros.

Deficits orçamentários. Técnica de exportação por mero interesse grupalista. Alta fictícia. Estamos todos empenhados em uma reajustação administrativa urgente, na redistribuição dos trabalhos, na fixação do homem no campo, não para entregá-lo à morte lenta e a sucção dos financiadores, mas para fazê-lo um pequeno produtor livre, fundando sua economia pessoal. Que temos nós para dar aos índios, que não têm um só dos nossos problemas? Que piedade maluca é a nossa, levando para o índio o nosso veneno e pensando que o civilizamos, adoecendo-o, envilecendo-o, acabrunhando-o?... A proteção real e lógica é defender suas terras, sua produção, sua pessoa.

É defendê-lo de nós. Levá-lo de nosso contato. Distanciá-lo da nossa civilização impetuosa, impiedosa e sangrenta. Deixem os nossos índios viverem.

Luís da Câmara Cascudo
Diário de Natal, 7 de junho de 1950

 
Postado em 5 de outubro de 2005, quarta

O Primeiro Norte-rio-grandense Bacharel em Olinda

Chamava-se José Joaquim Geminiano de Morais Navarro. O Curso Jurídico de Olinda instalou-se a 15 de maio de 1828, no mosteiro de São Bento. As aulas abriram-se a 2 de junho. Estavam matriculados quarenta e um estudantes. Em setembro de1832, prestavam os derradeiros exames. O Curso Jurídico de São Paulo, criado na mesma lei de 11 de agosto de 1827, instalara-se a 1o. de março de 1828, no convento de São Francisco e bacharelara a sua primeira turma de seis bacharéis, um ano antes, em novembro de 1831. Entre os quarenta e um diplomados de Olinda tínhamos um único conterrâneo, o Dr. José Joaquim Geminiano de Morais Navarro, já sem o Geminiano na lista de formatura.

Não deixou maiores rastos na terra natal, esse nosso distante iniciador da série patrícia dos advogados. Sabemos muito pouco de sua história. Fiz uma pesquisa longa para apurar-lhe as andanças anteriores e posteriores ao curso olindense.

José Joaquim Geminiano nasceu em Natal a 19 de dezembro de 1799. O pai, Padre Antônio Caetano do Rego Barros, era da primeira nobreza local, proprietário, irmão do coronel José Joaquim do Rego Barros, membro do governo republicano de 1817, homem rico prestigioso, tendo sido o presidente da Junta Constitucional Provisória, que administrou o Rio Grande do Norte de 3 de dezembro de 1821 a 7 de fevereiro de 1822. O nome do “sobrinho” deve ter sido homenagem ao tio ilustre. Depressa o rapaz aparece nos acontecimentos da época. Devia ser inteligente, vivaz e ousado. No juramento da Constituição que as Cortes estavam fazendo em Lisboa, vereação solene em Natal, a 24 de maio de 1821, José Joaquim Geminiano assinou, já importante. Na misteriosa concordata que os representantes do Rio Grande do Norte e de Pernambuco assinam em Recife, de auxílio mútuo, a 3 de agosto de 1824, José Joaquim Geminiano é um dos três delegados oficiais por sua Província. Os outros dois foram, o Padre Francisco da Cesta Seixas e José Joaquim Fernandes Barros. O “embaixador” tinha vinte e cinco anos. Precocidade diplomática...

Bacharel em 1832, logo a 15 de julho de 1833 é nomeado pela Regência em nome de Sua Majestade o Imperador, Presidente da Província de Sergipe. Toma posse a 29 de setembro do mesmo ano.

Não sei como se houve em seu governo. A 13 de fevereiro de 1835 passou a administração sergipana ao Dr. Manuel Ribeiro da Silva Lisbôa, o nosso Presidente Parrudo, que seria Presidente do Rio Grande do Norte e assassinado em Natal, com morte bárbara e tradição suja, no tocante à moralidade dos costumes.

Os seus patrícios quase o esquecem. Apenas revejo seu nome comprido na lista dos votados, a 10 de novembro de 1834, para deputados à primeira Assembléia Legislativa Provincial. E assim mesmo obteve... um voto.

Quase teria sido a carreira de José Joaquim Geminiano (na Carta Imperial está o Geminiano) depois de fevereiro de 1835? Ignoro. Encontro filhos seus terminando estudos jurídicos em Recife e nascidos na capital pernambucana. Aí deve ter residido e, até prova em contrário, viajado para o outro-mundo.

São estas as polegadas que adiantei na história de José Joaquim Geminiano de Morais Navarro, o primeiro norte-rio-grandense que se bacharelou em Direito na amada terra do Brasil.

Luís da Câmara Cascudo
A República, 21 de dezembro de 1939

 

Cascudo iniciou-se no jornalismo em A Imprensa, jornal de propriedade do seu pai...

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Digitação e revisão das Actas: Daliana Cascudo
Fotos: De Cascudo - Acervo do Memorial Câmara Cascudo;
Máquina de escrever, placa, casa de Cascudo e fotos eventuais - Sandro Fortunato;
Fotos que ilustram os textos - Canindé Soares.