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Agosto.
O claro mês dos meus anos. Que anseio
De ser asa migrante e fugir pelos ares,
Pelos longes do céu, através desses mares,
Em busca do calor do sol de um clima alheio!
Mistério e inconstância.
Duas palavras que podem definir os quase 35 anos de vida do poeta Ferreira
Itajubá. O mistério começa pelo seu nascimento que,
não se sabe ao certo, pode ter acontecido em 1875, 76 ou 77. O
último ano é o mais provável. A 21 de agosto para
ser mais preciso. Pelo menos foi o que assinalou o próprio poeta
no termo de nomeação para servente na Associação
de Praticagem. Onde nasceu? No Rio Grande do Norte, provavelmente na Praia
de Touros. O sobrenome com o qual passou para a História também
não era seu. Nascido Manuel Virgílio Ferreira, incorporou
o Itajubá em seus primeiros versos e depois definitivamente à
sua vida. A inconstância aparece no que em circunstâncias
normais se chamaria de vida profissional. Foi auxiliar do comércio,
orador popular, jornalista, professor, funcionário público
e dono de circo, cujos espetáculos tinham lugar no quintal de sua
casa. Mas acima de qualquer coisa, Ferreira Itajubá exerceu duas
principais “funções” em sua passagem por este mundo: a de
poeta e de boêmio.
Que saudade
sem fim de outras terras me veio!
Que ânsia de me esquecer por estranhos lugares!
Pois se não tenho aqui lenitivo aos pesares,
Quanto mais quem me aqueça ao mormaço de um seio!
Ferreira Itajubá
tinha alma de poeta. Talvez daí sua brevidade neste mundo. Com
a alma cheia de poesia, não precisou de grandes estudos. Tinha
apenas a instrução primária. Segundo Câmara
Cascudo, “morreu sem suspeitar a existência da gramática”.
O que em nada diminui o valor de seus versos, “de um lirismo espontâneo,
sonoros e ricos de seiva poética”, como disse Veríssimo
de Melo. Na introdução de Poesias Completas - obra
que reúne os dois livros de Ferreira Itajubá, Terra Natal
e Harmonias do Norte -, Esmeraldo Siqueira observa: “No poema de
Itajubá, o largo sopro lírico assume facetas sugestivas
e variadas. É romântico, amoroso, saudosista, filial, regionalista,
patriótico. Não lhe falta mesmo a nuança filosófica,
o sentimento da fuga vertiginosa do tempo e da precariedade da vida”.
Minha mãe?
Minha irmã? Duas mulheres santas
Mas inda falta alguém nesse longo caminho
Que tem na mocidade o perfume das plantas...
Alma de poeta e de criança.
Já adulto, empinava enormes papagaios (pipas, pandorgas) de papel
de seda e, na época de São João, virava fogueteiro.
Seu humor também era mostrado no jornal O Echo, que ele
mesmo criou. Colaborou em todos os jornais da época. Ainda que
raramente, também nos jornais A República e Rio
Grande do Norte, políticos e sisudos, bem diferentes de seu
estilo boêmio. Como homem simples e com a loucura dos poetas, também
buscou auxílio na Bíblia, encarnando um pastor.
E como não
posso ir, e como vais e eu fico,
À noiva que me espera à beira de algum ninho,
Ave de arribação, leva esta flor no bico!
A
mãe, a irmã e a misteriosa Branca eram suas fontes de inspiração.
E quem era Branca? Seu amor , às vezes perto, às vezes distante,
junto ao marido e que, segundo o escitor Nilson Patriota, em seu livro
Itajubá Esquecido, poderia ser Emília Ribeiro, nativa
da Praia de Touros. O poeta que vivia de saudades e amores oníricos
morreu no Rio de Janeiro, para onde tinha ido em busca de recursos médicos
inexistentes em Natal, a 30 de junho de 1912. Lá foi enterrado
e, anos depois, por iniciativa de Henrique Castriciano, seus restos mortais
foram levados para Natal e temporariamente depositado no ossuário
da Igreja de Bom Jesus das Dores. Numa das remodelações
da igreja, um frade juntou “as velharias existentes, inclusive os ossos
que encontrou aqui e ali e lançou tudo numa vala comum, ao lado
da igreja”. Os ossos de Itajubá estavam no meio. Termina assim
a breve história do poeta, bem diferente do que ele imaginara.
On line desde 2 de novembro
de 1998
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