A
volta de Procópio Ferreira
Accioly
Netto
A
melhor notícia da temporada teatral de 1964 nos foi dada
pelo produtor Oscar Ornstein: “Procópio
Ferreira vai voltar”.
E mais ainda, o grande ator, das mais legítimas glórias
de nosso teatro, se apresentará numa facêta de seu
talento desconhecido pela atual geração, o artista-cantor
da comédia musicada.
O VETERANO DE MUITAS ARTES - João Álvaro
de Jesus Quental Ferreira, carioca da Rua dos Inválidos recebeu
seu “nome
de guerra”
aos 17 anos, depois de passar pela Escola Dramática, das
mãos do veterano Olímpio Nogueira, em honra a São
Procópio, comemorado em 8 de julho, seu aniversário,
com a explicação profética: “Procópio
é nome de ator cômico”.
Como Procópio Ferreira, realizou a primeira grande criação,
o Zé Fogueteiro da opereta “A
Juriti”,
de Viriato Correa. E ganhou uma crônica consagratória
de Coelho Netto, em “A
noite”,
que o considerou - “o
melhor do elenco”.
Daí por diante, uma longa carreira artística conheceu
sucessos sem conta, em todos os gêneros, fazendo rir e chorar,
nas 450 peças que já apresentou (sendo 180 brasileiras),
revelando 24 autores e 50 artistas nacionais. Foi aplaudido por
muitos milhões de espectadores, no teatro e no cinema.
ATOR, AUTOR, EMPRESÁRIO, CONFERENCISTA -
Procópio Ferreira é autor de várias comédas
(“Briga
em Família”,
“Convidado
de Honra”),
numerosos livros de biografia (“O
Ator Vásquez”
e “A Arte
de Fazer Graça”),
uma série de conferências (“O
Teatro Brasileiro desde a Origem até Leopoldo Fróis”,
“Joracy
Camargo e sua Obra”,
“Antônio
José, o Judeu”),
e fundou um sem-número de companhias que percorreram o Brasil,
de ponta a ponta. Fêz todos os gêneros teatrais, desde
o drama e a tragédia (“Antígona”,
“Fedra”,
“Amor de
Perdição”
com Ítala Ferreira) à opereta e revista (“A
Juriti”,
“Costa Suzana”,
“Capital
Federal”).
Na comédia e no drama (“Manhãs
de Sol”,
“O Avarento”,
“O Divórcio”,
“Deus lhe
Pague”)
foi sempre respeitado e aplaudido pelos que sabem respeitar o talento,
seja em que forma se apresente.
O ATOR QUE NÃO SE APOSENTA - Homem de grandes
gestos humanos, é um profundo conhecedor de sua profissão
e daqueles que nela vivem - do ator ao autor, da crítica
ao público. Um certo desencontro com as novas gerações
e a incompreensão daqueles que fazem teatro nos últimos
anos deixaram que o grande intérprete se afastasse deliberadamente,
aos poucos, das capitais, limitando-se a apresentações
nas cidades do interior, na televisão e em eventuais filmagens.
Agora, porém, depois de intensa campanha, foi convencido
pela pertinácia dêsse arguto construtor de sucessos
que é Oscar Ornstein. Procópio Ferreira vai estrelar
a famosa cómedia musical norte-americana “Como
Ganhar Dinheiro Sem Fazer Fôrca”,
que Carlos Lacerda traduziu, e que tem estréia marcada para
novembro, no Teatro Carlos Gomes. Interpretará o papel que
fêz ressurgir na Broadway o nome de Rudy Valee.
VAMOS BATER PALMAS A PROCÓPIO - Finaliza,
portanto, da melhor forma, o ano teatral de 1964, com essa iniciativa
por todos os modos feliz - uma peça das melhores do teatro
musicado de todos os tempos (“Como
Ganhar Dinheiro Sem Fazer Fôrça”
está em Nova York, Paris, Londres, Melbourne) que terá
montagem excepcional, num elenco de primeira grandeza, e sobretudo
pela presença de Procópio Ferreira, que as velhas
gerações voltarão a aplaudir e os novos de
hoje aprenderão a admirar como o maior ator vivo do Teatro
Brasileiro.
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