Objeto
Voador Não Identificado
HOJE
não vou fazer uma crônica como as de todo dia; hoje,
quero apenas dar um depoimento. Deixem-me afirmar, de saída,
que nestas linhas abaixo não digo uma letra que não
seja estritamente a verdade, só a verdade, nada mais que
a verdade, como um depoimento em Juízo, sob juramento.
Escrevo do
sertão, onde vim passar férias. E o fato que vou
contar aconteceu ontem, dia 13 de maio de 1960, na minha fazenda
“Não
me Deixes”,
Distrito de Daniel de Queiroz, município de Quixadá,
Ceará.
Seriam seis e meia
da tarde; aqui o crepúsculo é cedo e rápido,
e já escurecera de todo. A Lua iria nascer bem mais tarde
e o céu estava cheio de estrêlas.
Minha tia Arcelina
viera da sua fazenda Guanabara fazer-me uma visita, e nós
conversávamos as duas na sala de jantar, quando um grito
de meu marido nos chamou ao alpendre, onde êle estava com
alguns homens da fazenda. Todos olhavam o céu.
Em direção
norte, quase noroeste, a umas duas braças acima da linha
do horizonte, uma luz brilhava como uma estrêla grande,
talvez um pouco menos clara do que Vésper, e a sua luz
era alaranjada. Era essa luz cercada por uma espécie de
halo luminoso e nevoento, como uma nuvem transparente iluminada,
de forma circular, do tamanho daquela “lagoa”
que ás vêzes cerca a Lua.
E aquela
luz com o seu halo se deslocava horizontalmente, em sentido do
leste, ora em incrível velocidade, ora mais devagar. Às
vêzes mesmo se detinha; também o seu clarão
variava, ora forte e alongado como essas estrêlas de Natal
das gravuras, ora quase sumia, ficando reduzido apenas à
grande bola fôsca, nevoenta. E essas variações
de tamanho e intensidade luminosa se sucediam de acôrdo
com os movimentos do objeto na sua caprichosa aproximação.
Mas nunca deixou a horizontal. Dêsse modo andou êle
pelo céu durante uns dez minutos ou mais. Tinha percorrido
um bom quarto do círculo total do horizonte, sempre na
direção do nascente; e já estava francamente
a nordeste, quando embicou para a frente, para o norte, e bruscamente
sumiu, - assim como quem apaga um comutador elétrico.
Esperamos
um pouco para ver se voltava. Não voltou. Corremos, então,
ao relógio: eram seis e três quartos, ou seja, 18.45.
* * *
Pelo menos umas vinte
pessoas estavam conosco, no terreiro da fazenda, e tôdas
viram o que nós vimos. Trabalhadores que chegaram para
o serviço, hoje pela manhã, e que moram a alguns
quilômetros de distância, nos vêm contar a mesma
coisa.
Afirmam alguns dêles
que já viram êsse mesmo corpo luminoso a brilhar
no céu, outras vêzes, - nos falam em quatro vêzes.
Dizem que nessas aparições a luz se aproximou muito
mais, ficando muito maior. Dizem, também, que essa luz
aparece em janeiro e em maio - talvez porque nesses meses estão
mais atentos ao céu, esperando as chuvas de comêço
e de fim de inverno.
* * *
Que coisa
seria essa que ontem andava pelo céu, com a sua luz e o
seu halo? Acho que, para a definir, o melhor é recorrer
à expressão já cautelosamente oficializada:
objeto voador não identificado. Mas, não
afirmo. Porém, isso êle era. Não era uma estrêla
cadente, não era avião, não, de maneira,
nenhuma coisa da Natureza - com aquela deliberação
no vôo, com aquêles caprichos de parada e corrida,
com aquêle jeito de ficar peneirando no céu, como
uma ave. Não, dentro daquilo, animando aquilo, havia uma
coisa viva, consciente.
E não fazia
ruído nenhum.
* * *
Poderia recolher os
testemunhos dos vizinhos que estão acorrendo a contar o
que assistiram: o mesmo que nós vimos aqui em casa. A bola
enevoada feito uma lua, e no meio dela uma luz forte, uma espécie
de núcleo, que aumentava e diminuía, correndo sempre
na horizontal, e do poente para o nascente.
Muita gente
está assombrada. Um parente meu conta que precisou acalmar
enèrgicamente as mulheres que aos gritos de “Meu
Jesus, misericórdia!”
caíam de joelhos no chão, chorando. Sim, em redor
de muitas léguas daqui creio que se podem colhêr
muitíssimos testemunhos. Centenas, talvez.
Mas faço
questão de não afirmar nada por ouvir dizer. Dou
apenas o meu testemunho. Não é imaginação,
não é nervoso, não são coisas do chamado
“temperamento
artístico”.
Sou uma mulher calma, céptica, com lamentável tendência
para o materialismo e o lado positivo das coisas. Sempre me queixo
da minha falta de imaginação. Ah, tivesse eu imaginação,
poderia talvez ser realmente uma romancista. Mas o caso de ontem
não tem nada comigo, nem com o meu temperamento, com minhas
crenças e descrenças. Isso de ontem EU VI.