O
Cambronne brasileiro
Não
creio que o Senhor Carlos Lacerda esteja dando urros de alegria
com o enforcamento político do Senador Juscelino Kubitschek.
Êle sabe, o clarividente Governador da Guanabara, que Adhemar,
Juscelino e êle são trigêmeos políticos
na creche da revolução.
Não
importa que a mensagem de cada um seja diversa. Um motivo ético
levará os militares, forçosamente, a não admitir
a sobrevivência de nenhuma das candidaturas do quadro atual.
Para que amanhã não sejam apontados como nomeadores
de um Presidente.
Carlos
Lacerda, na tourada que manteve no aeroporto de Orly, mostrou a
necessidade dessa revolução ser explicada aos outros
povos. Como poderíamos explicar uma revolução
que elimina os seus próprios fornicadores? Mas, é
o que vai acontecer.
“-
Eu me situo no cenário político brasileiro”
– disse o Manolete de Paris, dias depois do entrevero –
“como um
idealista pragmático, porque acredito que a democracia não
é incompatível com a ideologia.”
Essa
advertência lhe servia para negar a caça às
bruxas em que se dizia haver transformado a revolução
brasileira. E quando se lhe perguntou sôbre a depuração,
o corvo genial pediu que não se confundisse o sentido da
palavra. Com efeito, depuração quer dizer: lavagem
de cérebro, torturas, fuzilamentos sumários, como
se faz na China, na Rússia, em Cuba. Nada disso acontece
no Brasil.
Aqui,
os comunistas foram reduzidos ao que êles são na realidade,
isto é, uma minoria operante que se infiltrou noutros partidos,
sobretudo no do Senhor João Goulart, o qual sabia de tudo.
Os comunistas tinham os seus homens de palha – e através
dêstes, utilizando-se de sua incapacidade, de sua incompetência,
de seu impatriotismo, de sua corrupção, assenhoravam-se
do Govêrno do País. O Senhor João Goulart era
um homem de palha dos comunistas.
Poderia
o Governador da Guanabara dizer o mesmo do Senhor Juscelino Kubitschek?
Não creio. O comunismo em sua gestão desceu a índice
de absoluta inexpressividade. A sensação maior que
deve ser levantada contra o ex-candidato pessedista é o de
ter sido o herdeiro democrático de uma ditadura, a de Vargas.
A própria volta de Vargas fôra um êrro tão
crasso – disse o banderilheiro nos Champs Elysées –
como se no após guerra, alguém permitisse a Mussolini
candidatar-se à Presidência. Na linha de raciocínio,
Kubitschek não é mais que um prolongamento dessa abominável
oligarquia política.
Ao
traduzir a revolução para o Larousse, o Senhor Carlos
Lacerda fazia o papel de um quebra-gêlo nas relações
entre o Brasil e a França. Não tenham a menor dúvida,
esta nossa revolução, sonhada, desejada e possibilitada
pela maioria do povo brasileiro, é algo que os de fora não
entendem. Ou porque não tenhamos meio de explicá-las,
pois a maioria de nossas Embaixadas não funciona, ou porque
tem explicadores demais.
Meu
velho amigo, Jean Manzon, há 13 anos procura “vender”
o Brasil aos estrangeiros, as nossas contradições,
os nossos problemas, as nossas angústias, as nossas soluções.
Assim que Carlos Lacerda se viu dentro do problema em Orly, Manzon,
como nos antigos tempos, telefonou-me:
-
Você sabe, David, não sou lacerdista nem juscelinista
nem adhemarista. Não tenho o culto da personalidade. Sou
apenas um apaixonado do Brasil. E aflige-me ver tanto êrro
de julgamento. Acha que devo ir até lá falar com meus
colegas? Hoje, são todos diretores de jornais.
-
Claro – respondi.
Na
França, durante oito dias, o mosqueteiro Jean se movimentou,
procurando colocar os pontos nos ii. Com um trânsito fabuloso
em tôdas as áreas, o fundador da reportagem fotográfica
moderna e do nôvo documentário cinematográfico
no Brasil desfez, como por encanto, a idéia errada que a
ausência de humor da imprensa francesa e um certo cansaço
de viagem do Governador fizeram dêste País, que recebe
os franceses de braços abertos desde Villegagnon até
Brigitte Bardot ou Georges Bidault. Ao cabo de oito dias, Manzon
arrumou suas malas e voltou.
“-
Não me acostumo mais a viver fora daqui”,
disse ao desembarcar no Galeão. Havia, como sempre, cumprido
a sua missão, o grande Jean.
Em
plena Escócia, ou seja, no seu habitat, o ex-Presidente Jânio
Quadros havia dito a um jornalista francês que fôra
até lá entrevistá-lo – que o Brasil era
o país do amanhã, mas amanhã era sempre feriado.
Repor
as coisas em seu lugar não era tarefa leve, mesmo para um
Senhor Carlos Lacerda. Habituado a ser toureiro, quiseram transformá-lo
em touro, aquêles jornalistas de segunda classe que estavam
em Orly. Êle, que ajudara a libertar a França, sua
pátria espiritual, era recebido como uma espécie de
fascista. Quando se chama de fascista ou de reacionário a
um homem que lutou tôda a sua vida pela liberdade –
insulta-se a êsse homem. Quando se insulta alguém,
não se deve esperar amabilidades. Carlos exerceu um direito
de revide – e não apenas um direito de resposta.
A
viagem do Governador da Guanabara, sob todos os aspectos, foi proveitosa.
Êle retomou o diálogo, embora no tom áspero
e altivo de quem não se conforma em ser tratado como subdesenvolvido.
Um jornalista é um jornalista, mas um bêbado é
um bêbado – e o atraso na chegada do avião de
Carlos fêz com que os noticiaristas lambe-lambe que estavam
no aeroporto prolongassem os tragos. Alguns estudantes brasileiros,
ideòlogicamente transviados, o que é natural na idade,
foram a Orly excitar os representantes da imprensa a insultar o
político brasileiro. Tivesse Carlos Lacerda silenciado, permanecesse
em guarda, sem o impacto de suas palavras igualmente ácidas
(“- O Senhor foi comunista?”
“- Sim,
mas não tanto quanto o vosso Ministro André Malraux.”)
e a mesma imprensa adversária que o chamou de desvairado,
o chamaria de pusilânime.
A
revolução brasileira tem muitos explicadores, mas
não tem o explicador. Não basta credenciar homens
de alto nível para desfazer a má impressão
daqueles que não estavam, como nós, na caldeira do
diabo.
Seria
necessário que a própria revolução fizesse
por onde não desgastar-se ainda mais no conceito internacional,
policiando certas medidas de duvidoso interêsse nacional.
Durante
longo tempo – admitiu Carlos em Paris, depois da tourada –
os jornalistas estrangeiros venderam aos seus leitores a idéia
de um Presidente reformista, preocupado com a parte social dos problemas,
um líder apoiado pela grande maioria do seu povo, dos militares,
dos trabalhadores. Um Presidente humano e bom que era combatido
por uma quadrilha de reacionários do Departamento de Estado
e dos trustes de Wall Street. De repente, um golpe, em 48 horas,
sem derramamento de sangue, apeia do poder o Presidente bonzinho.
O seu povo não esboça um gesto para ajudá-lo.
Ao contrário: um milhão de pessoas nas ruas saúdam
a sua fuga. Como explicar aos leitores o êrro dos correspondentes?
Teria sido necessário um pouco de humildade, mas, vós
sabeis, em nossa profissão de jornalista a humildade não
é muito comum. O jeito é apresentar os democratas
brasileiros como homens de palha de Washington. Ora, não
somos homens de palha de ninguém. E foi aí que Dom
Carlos enfureceu: - Estivemos na prisão várias vezes,
lutamos durante 34 anos para nos libertar das oligarquias corrompidas.
E homens que talvez estivessem em Vichy quando ajudávamos
a libertar a França, atrevem-se a nos insultar, a nos chamar
de fascistas. Numa hora dessas Cambronne vira brasileiro. E foi
o que aconteceu.

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