Ninguém
conhece ninguém
José
Amádio apresenta Brasília Kubitschek
de Oliveira
AINDA bem
que sempre acreditei em Brasília, pois vi muita gente com
cara de bobo no Planalto Central.
Vermelho & Negro
O
personagem de hoje, como estão percebendo os perspicazes
leitores, é Brasília. Saibam que uma cidade é
como gente. E se não fôr, passará a ser, pois
tudo o que é belo é verdadeiro. Falarei não
da Brasília que já nasceu adulta, não da
capital da esperança, não do poema de concreto.
Quero falar de uma Brasília brotinho, ainda inexperiente,
ainda inculta, sem maquilagem - já deixando entrever a
maravilhosa môça que será e ainda, no futuro,
a imponente matrona. Brotinho descalço, os pés mergulhados
na poeira vermelha, cabelos ao vento quase frio, olhos voltados,
para o mundo. Uma quase-môça que está virando
a cabeça de todos os que a vêem. Sisudos embaixadores,
circunspectos representantes diplomáticos, graves observadores,
alegres turistas - todos se apaixonam a jato pela Lolita do Planalto.
Isso é verdade. Os estrangeiros, que nada têm a ver
com nossa economia interna (pelo menos diretamente), exultam,
elogiam, hipiurram. Esperavam seis vinténs e encontraram
a lua. Quase ninguém acredita no que vê. Os edifícios
quase levitando, o ocaso reverberando nas paredes de vidro. No
meio da confusão há silêncio, há majestade,
há qualquer coisa desabrochando com dignidade de rosa.
Brasília é o século XXI.
Equipe
& História
Não
ousarei descrever Brasília. Tal tentativa já foi
feita nesta edição pela equipe de “O
Cruzeiro”,
liderada por Ubiratan de Lemos - quilômetros de fotografias,
toneladas de informações, tudo em ritmo de jornal
diário, num atropêlo que para nós já
é rotina. O que quero mostrar é o “outro
lado”
de Brasília como o vi e senti no histórico 21 de
abril de 1960.
Um grande
instante da nossa geração desesperada.
Comecemos
por Juscelino cujo cartaz é na base de Frank Sinatra para
cima. Jusça é o homem-show, a estrêla do momento,
a grande vedete que os candangos literalmente adoram. Deus no
céu e êle na poeira da cidade. Aonde chega é
agarrado, beijado, vivado, aplaudido, puxado, sacudido. E não
evita contatos diretos com o povo. A polícia isolava os
candangos e os visitantes. Êstes abanavam. Juscelino os
chamava para perto. Inteligente, desmoraliza os cordões
de isolamento. E observando tôda aquela alegria, todo aquêle
entusiasmo espontâneo, deve ter sentido estranhas e grandes
emoções. Deve ter recordado... Há três
anos e meio, quando chegou ao Planalto resolvido a construir o
que talvez seja a cama de uma nova civilização,
foi acusado de biruta, de visionário. Uma cidade no meio
do mato quase virgem? Tadinho dêle! Dali, Juscelino deu
sua arrancada para o sucesso e para a glória. Mineirão
enérgico, cabeçudo, decidido, escavou as colinas,
bufou, baixou a cabeça feito um Miúra e investiu
contra as capas brancas da oposição, contra as capas
cinzas do pessimismo, contra as capas vermelhas dos interêsses
contrariados. Cada toureiro defendia seu próprio interêsse.
Êle visava o interêsse da nação modorrenta.
Era imperativo histórico que o Brasil mudasse sua capital.
Investiu e só levantou a cabeça depois da arrancada
final, no dia da inauguração.
O “olé”
desta vez foi para o touro.
Confusão
& Justificação
Brasilia
menina, catita, bossa nova, gerou alguma confusão. E daí?
Ponham cem mil pessoas de súbito em Pôrto Alegre.
Já pensaram que trapalhada? Lembram-se do Rio de Janeiro
durante o Congresso Eucarístico? Sabem o que aconteceu
em Londres durante as cerimônias da coroação?
E então? Afinal, Juscelino construiu uma cidade e não
um hotel para turistas. Quando há hóspede em casa,
a vida rotineira muda de ritmo. Brasília não poderia
acomodar cento e cinqüenta mil pessoas confortàvelmente.
Já sabiam disso os que para lá se dirigiram. A turma
do contra, os comodistas, os eternos inconformados reclamaram.
Mas o chôro é livre neste cálido país.
De qualquer modo, deputado dormindo na rua, em cama de jornal,
é conversa a crédito. Vi muitos acampamentos e barracas
nas proximidades do lago. Coisa bucólica. De um modo geral,
tudo correu bem.
Ou quase.
Pílulas
& Pugilato
Aconteceram
fatos pitorescos à margem das solenidades. Querem ver?
• O
hotel principal foi tomado pelo Govêrno para hospedar seus
convidados. Só aos hóspedes eram servidas refeições.
Isso gerou algumas escaramuças mais ou menos campais.
• Governadores,
senadores, deputados, esperavam mesa de pé. Não
havia a possibilidade brasileira de “se
dar um jeitinho”,
porque sentados estavam outros governadores, senadores, deputados.
• Aconteceu
um quase pugilato entre o Deputado Vasconcelos Costa e um desconhecido.
Motivo: uma cadeira.
• Drault
Ernany Filho viu uma cadeira desocupada no bar. Perguntou ao ocupante
da mesa:
- Pode emprestar?
- Não dou essa cadeira nem por dez mil cruzeiros.
Não deu.
Metralhadora
& Travesseiro
• Um
brigadeiro chegou ao hotel. Haviam ocupado seu apartamento. Protestou,
discutiu, retirou-se furioso, retornou com um ordenança
armado de metralhadora.
Corre-corre geral.
Ficou com o apartamento.
• Figura
de prestígio na República mandou um avião
ao Rio buscar travesseiros e cabides. Cabide era um dos objetos
mais disputados na Novacap.
• Um
baiano explicava:
- Brasília é a Novacap; Rio é a Velhacap;
Salvador é a Primacap.
• Um
deputado cearense encontrou seu apartamento sem mobília.
Não teve dúvidas: saiu para a rua de revólver
em punho, atacou um caminhão de mudanças da Cofap.
“Requisitou”
os móveis.
• Certo
governador resolveu levar uma conhecida para os festejos. De súbito,
sua espôsa irrompeu no hotel.
Já pensaram?
Peito
& Guitarra
Brasília
era uma necessidade. Um brotinho que Nabokovs pátrios aguardavam
há séculos. Se Juscelino não a tivesse construído
no peito e na raça, até hoje seria realidade de
pergaminho. Que se ponha a guitarra a funcionar, desde que o papel-moeda
se transforme em riqueza. As abobrinhas geraram uma cidade. Em
pouco a cidade estará gerando abobrinhas.
Da côr do dólar.
Pompa
& Emoção
O edifício
da Câmara e do Senado é de imponência faraônica,
para citar os articulistas do momento. Tudo na base do cristal
e do mármore. Cristais, não identifiquei, mas no
mármore andei escorregando. Quando Juscelino ingressou
ali, para a sessão solene conjunta, foi aplaudido de pé
durante três minutos. Oposição, situação,
assistência, funcionários, jornalistas, radialistas,
cinegrafistas - grandiosa sinfonia de aplausos glorificando um
gladiador. Sorrindo e abanando, visìvelmente emocionado,
Juscelino via cumprida mais uma de suas metas. Lembrei-me da frase
de Guillaumet que se perdeu nos Andes e sobreviveu:
- O que eu fiz, palavra que nenhum bicho, só um homem,
era capaz de fazer.
Há instantes de glória.
Euforia
& Resmungos
• De
um modo geral, os parlamentares estavam eufóricos. Os mudancistas,
radiantes. Os do contra, meio sôbre o sem-jeito. Uns raros
insistiam no absurdo da mudança em ritmo acelerado.
• A
sessão foi aberta pelo Vice-Presidente João Goulart.
Discurso rápido e bem feito. Quando citou Getúlio
Vargas, aplaudiram. Falaram ainda o Senador Filinto Müller
e o Deputado Ranieri Mazzilli.
Foi a primeira vez que Juscelino compareceu ao Congresso como
Presidente da República.
• O
Cardeal Cerejeira chegou atrasado.
• As
cadeiras do plenário são fixas para impedir que
os deputados voltem as costas à mesa durante os trabalhos.
• Um
deputado queixava-se da iluminação:
- Depois de ficarmos quatro horas olhando para aquelas faixas
de luz fluorescente, por detrás da mesa, elas ficarão
para sempre na nossa retina. Como é que pode?
• No
salão de recepções, Juscelino foi assaltado
pelos caçadores de autógrafos.
Estava feliz.
Modéstia
& Caçada
• Um
homem de blusão quis entrar no edifício do Congresso.
Não tinha convite. Foi barrado. Quando se retirava calmamente,
alguém gritou:
- É o Oscar Niemeyer.
O soldado que o barrara perfilou-se. Fêz continência.
Niemeyer entrou.
• Quase
ninguém falou em Lúcio Costa, autor do plano pilôto
de Brasília. Por quê?
• Durante
a missa solene, o Conde Carl Douglas, embaixador da Suécia,
meteu o pé num buraco.
Torceu-o diplomàticamente.
• O
primeiro caçador de Brasília foi o Deputado Breno
da Silveira. Resultado da caçada (em seu sítio):
um tucano.
• Barbosa
de Souza, escurinho de alma alva que trabalha no laboratório
fotográfico de “O
Cruzeiro”,
conseguiu aproximar-se de Juscelino, na rua, e disse:
- Quero apertar a sua mão duas vêzes.
- Por quê? - perguntou o Presidente.
- Uma em meu nome e outra em nome do Embaixador Assis Chateaubriand.
Deu os dois apertos.
Ausência & Poeira
• Assis
Chateaubriand foi o grande ausente. Um dos homens que mais têm
lutado contra o subdesenvolvimento dêste país, identificou-se
com Juscelino. Ambos têm olhado na mesma direção.
Brasília seria um amplo palco para os seus gestos amplos.
O próprio Presidente Kubitschek disse a um amigo:
- Está faltando alguém aqui.
O amigo adivinhou:
- Já sei. Chateaubriand.
- Isso mesmo.
• O
cartaz n.º dois de Brasília chama-se Israel Pinheiro.
• As
senhoras que iriam à recepção no Palácio
dos Despachos estavam aflitas com a falta de cabeleireiros e de
ferros de engomar. Mas tôdas apareceram bem penteadas e
bem passadas.
• Na
recepção, muitos rapazes queriam aparecer em fotos
ao lado das meninas Kubitschek. Promoção?
• A
turma dançou pouco. Comeu e bebeu muito.
• Juscelino
foi surpreendido várias vêzes, durante as solenidades,
com os olhos úmidos.
- Poeira - justificava-se.
Princípio
& Fim
Em 1808, no Correio
Braziliense (editado em Londres) Hipólito José da
Costa Furtado de Menezes já pugnava pela mudança
da capital brasileira. Em 1821, José Bonifácio insistia
no assunto. São João Bosco anteviu a criação
de Brasília. Em 1853, o Senador Varnhagen fêz sua
investida. Floriano enviou ao Planalto a famosa Missão
Cruls. Vargas e Dutra também agitaram a questão.
JK lançou a pá de cal.
Guerra & Paz
Se depois
disso tudo você não acredita em Brasília,
dê uma chegadinha lá. Sem compromisso. Mas trate
de ir segurando o queixo. Declaro com certa solenidade que Brasília
é um milagre. E observe-se que não sou ufanista,
não sou governista, não sou coisa nenhuma. Apenas
uso a cabeça de quando em quando. Os Estados Unidos e a
Rússia votam verbas fabulosas todos os anos para a construção
de instrumentos de guerra. Ninguém reclama. A Inglaterra,
a França, a China - tôdas as nações
queimam tesouros visando destruição. Aplaude-se
ou admite-se. Surge um homem querendo construir, querendo realizar
algo quase inédito na história da humanidade, projetando
definitivamente o Brasil no mundo, colocando-o num primeiro plano
de convivência internacional - e se combate êsse homem.
Que
é que há?
Volta & Voto
Juscelino
foi entrevistado coletivamente.
Perguntaram-lhe:
- O senhor aceita sua candidatura para 1965?
Riu. Abriu os braços. Respondeu:
- Como posso aceitar o que ainda não me foi oferecido?
Uma coisa é certa: se fôr candidato, terá
o meu voto. Consciente.
E está encerrado o assunto.