Goiás,
Goiás, Linha Dura, Linha Dura
Castello não sairá da Lei
O
PRINCIPAL problema do Govêrno Castello Branco continua a ser
o ajustamento da frente interna revolucionária ao objetivo
do Presidente, de recuperar a ordem jurídica e de restabelecer
um ambiente de paz e harmonia. A crise do Estado de Goiás
trouxe à tona, de maneira dramática, a persistência
do inconformismo da Linha Dura com os métodos de ação
consentâneos com o nosso regime democrático. Essa corrente
extremada tem demonstrado desde abril que não confia no mecanismo
institucional para promover a regularização da vida
pública do País e continua a insistir na adoção
de medidas de expurgo concebidas à margem dos processos legais
em vigor. Trata-se, portanto, de um movimento que pretende sobrepor-se
ao regime e impor ao Presidente da República uma política
que contraria a política declarada do Govêrno de promover
a consolidação da ordem civil.
A batalha interna no Govêrno apresenta-se tanto mais difícil
quanto, em essência, não discordam seus chefes das
exigências do espírito revolucionário de prosseguir
com os inquéritos e as investigações destinadas
a completar a limpeza iniciada tão dràsticamente nos
primeiros dias da Revolução. Apenas, com a responsabilidade
do comando, entendeu o Presidente desde cedo ser incompatível
a afirmação das instituições democráticas
com práticas que não encontram amparo nas leis em
vigor. A caducidade dos dispositivos do Ato Institucional, que autorizavam
o Govêrno a adotar medidas de punição sumárias,
representou um inequívoco ingresso na ordem constitucional,
que não comporta recuos.
Dessa maneira, qualquer transigência do Presidente da República
com medidas de exceção preconizadas, quando não
postas em prática à revelia da política oficial,
por militares da Linha Dura, representaria um abalo da autoridade
presidencial e uma agressão às instituições
democráticas.
O Presidente Castello Branco tem-se mostrado plenamente consciente
dêsse problema de regime e das suas responsabilidades. Sua
atitude ostensiva no caso de Goiás indicou claramente que,
a esta altura, coloca êle seus compromissos com a ordem civil
acima da sua solidariedade com os impulsos revolucionários
que liderou e levou à vitória num momento em que a
ordem civil se apresentava subvertida, senão apodrecida.
O Presidente provàvelmente terá vencido mais essa
batalha, na base do apoio das correntes civis, da solidariedade
da opinião pública e do seu inegável prestígio
militar. Mas tudo indica que não será a de Goiás
a última batalha que se ofereceu no seu caminho de consolidador
ao mesmo tempo da vitória da revolução e do
triunfo do espírito democrático.
Enquanto os influentes grupos militares da Linha Dura não
se convencerem de que as ações de repressão
e de expurgo político devem, daqui por diante, se conter
nos estritos limites da legalidade e se produzirem no âmbito
dos processos permitidos pela Constituição, haverá
sempre dificuldades a enfrentar. Êsses poucos meses de triunfo
revolucionário deixaram bastante claro, mais uma vez, que
não há convivência possível entre o arbítrio
e a Constituição. Se prevalece a Constituição,
as ações arbitrarias perdem o sentido e o conteúdo.
Se prevalece o arbítrio, é a Constituição
e é o Regime que desaparecem.
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