Canário
na muda não canta
Lacerda, de Paris para “O Cruzeiro”:
impatriótico agitar a sucessão.
O
Marechal Dènys havia estabelecido o debate: o General Justino
Alves Bastos endossou as palavras do Ministro da Guerra de Jânio
Quadros: eleições diretas em 1965 para a Presidência
da República, não. A entrevista, publicada no último
número de “O
Cruzeiro”,
provocou uma intensa movimentação nos meios políticos
e militares. Era necessário recolher a opinião dos
candidatos que já se encontram lançados e pràticamente
em campanha, sôbre a decisão tomada pelo comandante
do IV Exército e chefe revolucionário. O ex-Presidente
Juscelino Kubitschek tem posição definida: não
abre mão do direito de disputar as eleições
livres de 65 e na forma direta, prevista na Constituição.
O Sr. Adhemar de Barros, também candidato inarredável
– segundo depoimento que presta seguidamente à imprensa
– foi ouvido por nós. Faltava a palavra do Sr. Carlos
Lacerda, que se encontrava em Paris.
O
Editor de Reportagens de“O
Cruzeiro”,
Arlindo Silva, expediu o telegrama ao nosso Repórter Luiz
Carlos Barreto, que cobre o Festival de Cannes. Eis o telegrama:
“Para abertura
próximo número entreviste Lacerda sôbre sua
missão Paris focalizando principalmente problema eleições
indiretas proposta Marechal Dènys endossado hoje entrevista
General Justino pt Responda urgente Arlindo”.
Horas
depois chegava a resposta de Luiz Carlos Barreto:
“Depois
de algumas horas de plantão à porta do Plaza consegui
falar com Lacerda. Declarou ser impossível dar a entrevista
agora, sobretudo acêrca do problema da sucessão, prometendo,
entretanto, falar dentro de dois dias a respeito da sua missão
na Europa, acrescentando ser inoportuna a colocação
agora do problema das eleições em 65, sendo importante
neste momento ajudar o Marechal Castello Branco a fazer um bom govêrno.
Considera prematuro e impatriótico cogitar e agitar a sucessão
ao atual Govêrno, de uma revolução que está
apenas estreando. Prometeu-me, dentro de dois ou três dias,
uma oportunidade para fazermos a entrevista sôbre sua missão
na Europa com algumas fotos. Informe se interessa ainda Lacerda
em Paris, onde tem feito visitas a galerias de arte e museus e contatos
com deputados franceses, além de visitas a redações
de importantes jornais. Visitou hoje o diretor de France Soir, Pierre
Lazareff, evitando, entretanto, contatos com repórteres e
fotógrafos. Sôbre a sucessão só se pronunciará
no seu regresso ao Brasil”.
O
governador e candidato à Presidência da República
Carlos Lacerda não fala sôbre a sucessão em
65. Não opina sôbre a tese Dènys-Justino. Acha
impatriótica a colocação do problema agora.
É uma definição. E por isso é que publicamos
o seu não ao repórter em Paris.
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