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Gôsto de Brasil
Rachel
de Queiroz
Aproximam-se
as eleições parlamentares e o país todo é
uma grande interrogação. Embora eu ainda não
acredite que a resposta das urnas já seja, pròpriamente,
uma resposta à obra dos homens do 31 de março. O prazo
decorrido ainda foi curto, com tantas interrupções
pelo meio. Nota-se contudo que há no povo uma grande sensibilização
que só se pode chamar de patriótica: um interêsse
nôvo pelo Brasil, um gôsto de dizer o nome do Brasil,
de falar que é brasileiro, de usar a bandeira, de pintar
as coisas de verde e amarelo, de sentir o Brasil grande. Talvez
o elemento desencadeador dessa euforia tenha sido o resultado da
Copa do Mundo; mas o interessante é que a euforia não
passou, mesmo depois de passadas as comemorações do
feito esportivo.
Acho que, essencialmente, todos
os brasileiros estávamos cansados da estagnação
no subdesenvolvimento, do sentimento de sermos irremediàvelmente
pobres, pregados no atraso e na desordem de um país de segunda
classe. Estávamos ansiosos por qualquer coisa que levantasse
o orgulho nacional. Estávamos fartos da esterilidade da contestação
e do protesto. Digo isso quanto à maioria, que os grupos
minoritários, todos sabem, são um caso à parte;
e, afinal, quem conta é a maioria.
Vejam-se, por exemplo, os homens do show-business, que
têm as antenas sempre orientadas no sentido das preferências
populares. Êles abandonaram decididamente a contestação
e o protesto, que até bem pouco tempo eram a tônica
de qualquer espetáculo, às vêzes metidos à
fôrça, com propósito ou sem propósito,
até mesmo quando o texto não dava pé. E não
se diga que êsse abandono do protesto é obra da censura,
pois mesmo nos momentos de censura mais severa há meios de
chegar até ao limiar do permitido e insinuar ou dizer entre
linhas o que abertamente não pode ser dito. Acontece é
que evidentemente o público já não prestigia
os shows de protesto; não vai ver, não compra entradas.
Os letristas da MPB sintomàticamente deixam de falar só
em irmão, em paz, em mão aberta, em guerra, em fome,
em sangue e demais chavões do cancioneiro contestatório.
A onda do Patropi continua crescendo; o êxito do País
Tropical ainda não sofreu colapso, pelo contrário,
vai sempre em maré montante, já agora através
dos imitadores, pois só se imita o que está de cima.
Afinal, o povo não é
cego nem é burro. E o povo está vendo que os homens
trabalham, e lhe entram pelos olhos os bons resultados dêsse
trabalho.
A situação econômica, entre outras coisas, está
na cara, para quem quiser enxergar. O contrôle da inflação,
que parecia impossível, hoje já se considera conquista
assegurada. A exportação cada vez maior e mais diversificada,
as marcas “Indústria
Brasileira”
ou “Made
in Brazil”
espalhadas pelas sete partes do mundo. Os problemas da educação
sendo enfrentados - e na maioria resolvidos ou em caminho de resolução.
Essas obras, pontes e estradas e cais e hidrovias e escolas e usinas
elétricas se expandindo por tôda parte. O tal de Produto
Nacional Bruto, a entidade mística dos economeses, êsse,
mesmo os técnicos mais pessimistas já não podem
esconder que cresce a olhos vistos, queimando as estatísticas.
Até Mr. Herman Kahn deixa de futurar para nós apenas
miséria e indignidade e nos tira amàvelmente do fim
da fila para um lugar muito melhor.
Mas o bom mesmo é o cheiro
de madrugada que se sente por tôda parte. Um gôsto de
deixar que os meninos cresçam. Uma confiança, uma
segurança novas, como se de repente houvéssemos descoberto
que nem tudo está perdido ou, pelo contrário, que
nada está perdido. Que a terra é bela e é nossa
e quem tinha razão era mesmo o escrivão Caminha: em
se querendo plantar, dar-se-á nela tudo.
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