Comer
e engordar - Eis a questão
Reportagem
de Florisbelo Vila-Nova - Fotos de José Severino Filho
O
autor desta reportagem é correspondente do “Jornal
do Commercio”
do Recife no município pernambucano de Bom Conselho e diretor
do “Bom
Conselho-Jornal”.
Impressionado com que o viu no Sítio Borges, pretende despertar
o interêsse da classe médica para a estranha doença
de D. Inocência Colatino Lira, “que,
infelizmente, já conseguiu empobrecer a sua família
e continua a engordar e a ser, a cada dia que passa, mais desventurada”.
Ela pesava 242 quilos no dia 15 de setembro de 1964.
ACONTECEU de repente, há 16 anos. D. Inocência Colatino
Lira, agora com 44 anos, casada, mãe de quatro filhos, sentiu
dormência nas mãos e nas pernas, começou a tremer
e caiu sem sentidos, com o rosto marcado de manchas roxas. Muitas
horas depois voltou a si, sentindo uma vontade incontrolável
e insaciável de comer. Hoje pesa mais de 242 quilos (pesava
53) e continua engordando e comendo.
Desde o primeiro desmaio, alimenta-se de hora em hora. Se se atrasa,
treme, chora, fica roxa e desmaia. Sua primeira refeição
é feita de madrugada: um quilo de carne verde e um litro
de leite quente. Daí em diante, um litro de leite “com
mistura”
de hora em hora, até o meio-dia, quando come mais um quilo
de carne. À tarde volta ao ritual do leite e janta seu terceiro
quilo de carne ao anoitecer.
O marido de D. Inocência, o sitiante Joaquim Leôncio
Ferreira, do Sítio Borges, distrito de Rainha Isabel, em
Bom Conselho, Pernambuco, empobreceu com a doença da mulher.
Trabalha como um condenado e ela o ajuda fazendo costuras. Mas ainda
dependem do auxílio dos vicentinos de Palmeira dos Índios
(Alagoas), que mandam, tôda semana, a D. Inocência,
15 quilos de fubá de milho, 15 de arroz, manteiga e bolachas.
A Prefeitura de Palmeira dos Índios entra com 4.500 cruzeiros
para a compra da carne.
As
medidas de D. Inocência, segundo ela própria, são
estas: altura, 1,63m; cintura, 1,70m; busto, 1,70m; circunferência
do braço, 0,62m. Faz um vestido simples com seis metros de
fazenda de duas larguras e usa sapatos 36 (apertando) ou 37. Senta-se
em duas cadeiras juntas, muito mal acomodada; para ter algum confôrto,
prefere um banco de madeira espêssa. Não pode ficar
em pé muito tempo e depois de 15 minutos o cansaço
é irresistível. As portas da casa de taipa onde mora
a família têm 80 centímetros de largura. D.
Inocência dorme mal e sonha demais. Às vêzes
dorme no banco onde passa quase o dia inteiro costurando com dificuldade
numa pequena máquina manual.
D. Inocência contou seu drama ao repórter, dizendo-se
profundamente infeliz. O marido teve de vender tudo para comprar
comida, os filhos passam privações e ela, depois de
16 anos, continua sofrendo da mesma fome e engordando sem parar.
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