Parlamentarismo
pode levar à anistia
UMA
explosão romântica ou uma demonstração
de insatisfação com a atualidade, a apresentação
de uma emenda à Constituição, com o objetivo
de reformular o regime político em têrmos parlamentaristas,
deixou os observadores políticos num mar de perplexidades.
Foram 244 deputados os que subscreveram a emenda, e êsse número
representa mais da metade da Câmara, sem contar os que, por
omissão deliberada ou excesso de cautela, preferiram resguardar-se
para um pronunciamento futuro.
Êsse
Congresso que aí está, antes de constituir-se, apenas
com os diplomas concedidos pelas eleições de outubro
de 1962, sofreu uma dura e irremediável derrota: as urnas
do plebiscito de janeiro de 1963, depois de abertas, contados os
votos, mostram que o eleitorado não concordava com a instituição
do Parlamentarismo.
Na verdade, os que reinvestem agora têm argumentos que suportam
bem as análises dos que relembram o repudio do eleitorado
àquela primeira experiência de regime de Gabinete,
na nossa República.
Dizem os adeptos do Parlamentarismo, autores dessa última
emenda, que em 1961 se verificou apenas uma rendição
do Congresso a pressões militares. O presidencialismo então
foi derrotado como uma solução de compromisso, para
a posse do Sr. João Goulart. Em segundo lugar, o Presidencialismo
foi vitorioso, na consulta plebiscitária de janeiro de 1963,
por dois motivos: 1.º o eleitorado quis respeitar o mandato
presidencialista do Sr. João Goulart; 2.º o exercício
do regime foi inteiramente desvirtuado pelo Presidente da República.
Agora, nessa nova tentativa, parecendo um paradoxo, são dois
homens ligados ao Govêrno, um udenista e um libertador, que
tomaram a iniciativa de levar o Congresso mais uma vez ao difícil
debate da reformulação do regime. Ainda que históricos
nessa posição, defensores da medida desde a Constituinte
de 1946, ambos sentiram que, dentro de velhas observações,
o momento é propício: é de crise das instituições.
O Deputado Aliomar Baleeiro, ao apresentar a emenda, na solenidade
de aniversário da Constituição, apontando para
os raros militares que na Câmara se encontravam representando
as Fôrças Armadas, disse: “Nenhuma
revolução legitima a Constituição; a
Constituição é que legitima as revoluções”.
A sentença do representante udenista, até agora, é
a única indicação política de que a
iniciativa dêle e do Deputado Raul Pilla tem um aspecto anti-revolucionário.
Corre-se o risco mesmo de afirmar que foi entendida como uma declaração
de repulsa ao Ato Institucional, ora em vigor, édito dos
Ministros militares da Revolução.
Em seguida, objetivamente, talvez o fator mais ponderável
da iniciativa, é o vasto apoio que os parlamentares deram
à emenda que merece ser analisado.
Afirma-se, em primeiro lugar, ter a Câmara dos Deputados agido
intencionalmente para: 1. demonstrar a sua insatisfação
pela maneira como foi tratada pela Revolução; 2. tentar
a recuperação do seu prestígio e da sua autoridade
em face da opinião pública.
Recusando-se a assinar a emenda, o Deputado Pedro Aleixo, líder
do Govêrno, trouxe do Presidente Castello Branco uma palavra
de neutralidade. Trata-se de uma iniciativa parlamentar, na qual
o Presidente da República não desejava influir, direta
ou indiretamente.
Depois disso, alguns setores da oposição vislumbraram
na emenda Baleeiro-Pilla aspectos negativos. Alguns elementos do
PTB chegam a imaginar que, na impossibilidade de reeleger-se o Marechal
Castello Branco ou diante da dificuldade de elastecer-se o seu mandato
mais uma vez, o Parlamentarismo seria o instrumento mais apropriado
para se chegar a qualquer das duas hipóteses. O afastamento
da perspectiva da sucessão presidencial ou a consagração
constitucional da eleição indireta cabem perfeitamente
dentro de um quadro de especulações.
De modo imediato, porém, o problema é visto de maneira
diferente. Admitem alguns que o arrôjo dos dois parlamentares
governistas foi estimulado por setores militares descontentes com
os rumos da Revolução de 1.º de abril. Se verdadeira
essa informação, a emenda parlamentarista, mesmo dividindo
as Fôrças Armadas, teria delas um sôpro vivificador,
um suporte de sustentação política. E o Presidente
Castello Branco, também chefe da Revolução
de 1.º de abril, teria que optar entre um retôrno à
normalidade política, isto é, revigorar o seu prestígio
político com a convocação das eleições
para o seu substituto ou admitir a reformulação das
normas regimentais da República.
Essa observação parece encontrar apoio na maneira
como reagem aquêles que já se engajaram na candidatura
do Governador Carlos Lacerda. Muitos assinaram a emenda e evitam
discutir a particularidade de ser ela um caminho diverso daquele
pelo qual envereda o candidato udenista à Presidência
da República, trepidando desde agora na sua campanha eleitoral,
clamando pelas eleições, pelo ato eleitoral, que entende
ser o sinal ostensivo da volta do País à normalidade
política.
Para a oposição, o PTB, e para os de certo modo marginalizados,
os pessedistas, a emenda parlamentarista oferece um mundo de sugestões.
Se aprovada, a primeira conseqüência seria o desmantelamento
político da Revolução. Fôrças
políticas agora contidas pelo constrangimento de uma adesão
ou de uma submissão teriam meios de reaproximar-se do instrumental
governista. O Gabinete não prescindiria jamais do PSD para
ter validade política como Govêrno. Daí por
diante, o desdobramento se faria de maneira normal: a anistia se
seguiria à normalização da vida política
brasileira.
Por outro lado, o problema da influência militar na política
poderia ser tratado com maior objetividade, desde que evitados os
erros da experiência de 61 e 62, cujo regime deixou ao Presidente
da República uma vasta área de manobras para formular
e reformular seu dispositivo militar até chegar ao plebiscito
de 1963.
O debate da oportunidade do Parlamentarismo, a despeito do número
de subscritores da emenda Baleeiro-Pilla, ainda não se deu.
Possível até que êle seja adiado. Mas êle
se dará, certamente, dentro e fora do Congresso. Na segunda
hipótese, o debate será entre os chefes militares,
dispostos a sustentar a Revolução de abril em têmos
“revolucionários”,
de qualquer maneira, até um ponto ainda não determinado
pelo Ministro Costa e Silva.
Dificilmente, portanto, o Presidente Castello Branco sustentará
a proclamada neutralidade diante de problema tão delicado,
na opinião de todos. Êle será obrigado àquela
opção, que os lacerdistas imaginam como desfecho do
episódio, ou agirá, politicamente, para encontrar
uma saída “neutra”:
a reformulação do regime de modo a dar à República
melhores instrumentos de govêrno.
De qualquer maneira, o problema está pôsto na ordem
do dia.
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