O
samba de Garrincha
Texto de
MÁRIO DE MORAES – Fotos de RUBENS AMÉRICO
Mané
Garrincha, que sambou como quis frente a “João”
de tôda ordem, e balançou muita rêde internacional
com seus chutes de enderêço certo, volta ao cartaz
numa nova facêta, bem diferente da que o fêz famoso.
Garrincha, agora, fará os outros sambarem, dando receita
para balanço. Não é conselho para furar arco
adversário, mas forma acertada de cair no mais autêntico
samba brasileiro. Porque Mané virou sambista. E, na base
do teleco-teco, lançou seu primeiro sucesso, que tem como
título “Receita
de Balanço”.
E, com intérprete, Elza Soares, a bossa em pessoa.
A
história é simples, como simples são os seus
personagens, apesar da fama que os cerca.
Há
dias Elza Soares preparava, na cozinha da sua bonita casa da Ilha
do Governador, um bem temperado feijão, quando ouviu o ritmado
assovio. O samba não era conhecido. O assobiador, sim. Mané
Garrincha surgiu, e com êle o diálogo:
-
Onde aprendeu êsse samba, Nenen?
- Não aprendi, Crioula. É meu.
- Seu? E tu é sambista?
- Não sou, mas dou meus assobios.
A
música era gostosa. Faltava a letra. Ali mesmo, entre pratos
e panelas, Mané Garrincha preparou a primeira parte. Depois
do almôço, saiu a segunda. Elza deu uns retoques, e
veio o batismo: “Receita
de Balanço”.
-
Vou gravar êsse samba, Nenen.
- Deixa pra lá, Crioula.
- Mas, êle é muito bonito.
- Então, é todo seu.
A
turma da Odeon ouviu o samba. Gostou e marcou gravação
para o dia 24 de junho. “Receita
de Balanço”
completará um compacto de 4 sambas. Unindo-se a
“O
Morro”,
“Bossambando”
e “Na
Roda do Samba”.
Garrincha misturando-se com compositores do quilate de Carlos Lyra,
Orlandivo e Helton Menezes.
Agora
o diálogo é conosco:
-
O samba é bom, Garrincha?
- Não sei. A Crioula gostou.
- Você já tinha feito algum outro samba?
- Não me lembro. Talvez, sim. De brincadeira.
- Qual é a letra?
- Não repare a voz. É assim: “Vamos
balançar/ Cantando/ Vamos balançar/ Sambando/ Vamos
balançar/ E deixando a tristeza da vida pra lá”.
Agora, a segunda parte: “Como
é que nasce o amor?/ Balançando/ Como é que
se cura uma dor? Cantando/ Então vamos balançar/ E
deixando a tristeza da vida pra lá”.
Gostou?
Gostamos.
Principalmente depois que ouvimos a repetição na voz
de Elza Soares. É impossível, porém, separar
Garrincha do futebol. Ainda mais na semana em que só se fala
no seu joelho enfêrmo.
-
Como vai o joelho, Garrincha?
- Acabei o tratamento hoje. Agora, segundo o médico que está
me tratando, terei que ficar mais quinze dias parado. Depois posso
voltar a jogar, em plena forma.
- Quem é êsse médico?
- É um holandês, de nome complicado. É muito
bom, e deu jeito no meu joelho.
Garrincha
se desabafa. Está triste com os que o criticam, por não
ter excursionado com o Botafogo. Explica que teve vontade. O seu
médico, porém, avisou ao técnico do clube:
-
Se quiser, podem levá-lo. Mas, na volta, não quero
mais vê-lo, nem me responsabilizo pelo que lhe possa acontecer.
Se não fizer o tratamento direito, pode ter certeza de que
Garrincha não ficará bom.
Mané
não foi, pensando no próximo campeonato carioca. E
na Copa do Mundo de 66:
- Essa eu trago, nem que tenha que morrer em campo.
Falaram
que êle só pensa em dinheiro:
- Não é verdade. Gostar de dinheiro, eu gosto. Mas
gosto ainda mais do futebol. Se o que dizem fôsse verdade,
eu teria ido. Jogava cinco minutos em cada partida, garantia a cota
do Botafogo e embolsava 200 mil cruzeiros por jôgo. Além
disso, não indo, deixei de ganhar um milhão e pouco.
Estou há 13 anos no Botafogo e só não excursionei
porque preciso ficar bom. Para o bem do meu próprio clube.
Elza
Soares vai trocar de roupa, para novas fotos. E comenta:
- Hoje eu posso escolher um vestido, entre muitos que enchem o meu
guarda-roupa. Não era assim no tempo da Conceição.
“Conceição”
era um vestido. O único que Elza Soares possuía quando
iniciou no rádio. Presente de Ziza, espôsa de Aerton
Perligeiro. Côr coral, era lavado todos os dias, para as apresentações
da bossa crioula. Hoje Elza ganha 200 contos por “show”
e faz de dois a três por semana.
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