
O
eunuco dos verdes mares
Meu
caro Juscelino:
Embora êsse lamentável porta-aviões seja, como
diria o Garret, inútil como um cônego, é um
fato consumado e as discussões sôbre o seu custo, sôbre
a sua eficiência, sôbre a sua necessidade parecem fora
de tempo. Na verdade, por que se omitiram as augustas vozes parlamentares,
quando daqui desta tribuna jornalística denunciamos o contrato
para a aquisição do honorável calhambeque?
A êsse tempo, bastaria a perda do sinal de pouco mais de 300
milhões e o museu naval iria ancorar noutro pôrto.
O silêncio foi a resposta à notícia. Nenhum
deputado quis saber por que se comprava uma sobra flutuante da Segunda
Guerra nem qual a conveniência de um navio-aeródromo
a um país cujo litoral imenso se presta a bases aeronavais
em tôda a sua extensão.
Os honrados almirantes, na brancura
de suas vestes e de suas almas, defendiam o seu legítimo
setor: para os guerreiros do mar o porta-aviões é
um porta-aviões. Para os civis, que pagam com os seus impostos
essas orgias marítimas, era apenas uma extravagância.
CUMPRIA,
na época, aos ilustres representantes do povo alterar os
sisudos marinheiros para a calamitosa situação econômica
do País. Era a tarefa dos legisladores, dos aprovadores de
orçamentos, limitar as naturais expansões profissionais
daqueles que desejam naturalmente ver a sua Marinha dotada de vasos
de guerra. Não é tarefa dos almirantes prever ou não
a guerra próxima. Sua missão é trazer o pessoal
adestrado e, sobretudo, embarcado. Para adestrar o pessoal e embarcá-lo,
nada mais lógico que navios. Se a Marinha é de guerra,
que desejam os parlamentares que os almirantes comprassem? Iates?
Não. Destróieres, submarinos, cruzadores, couraçados
e, se houvesse facilitário, porta-aviões.
AGORA,
se a compra de um porta-aviões representava sangria espantosa
à bôlsa de um povo em luta com problemas de nutrição,
de saúde e de ensino, não completa naturalmente aos
almirantes decidir, embora, além de almirantes, fôssem
também brasileiros.
COMPLETA,
isto sim, julgar da viabilidade da compra, das nossas posses, das
nossas divisas, do nosso orçamento de câmbio, ao honrados
membros do Parlamento Nacional Por que se omitiram?
OS deputados não dispunham
de tempo, na oportunidade. Estavam discutindo e votando a lei especial
que lhes autorizava a importação de automóveis
de luxo a dólar oficial.
SE
naquela ocasião em que denunciamos a fantástica operação
de compra de um navio obsoleto para transportar aviões de
combate através de uma faixa atlântica que é,
repetimos, imenso porta-aviões ancorado nesta América
brasileira, se a advertência de um jornalista (de oposição
embora, mas não sistemática nem intransigente) fôsse
agasalhada pela Câmara dos Deputados ao menos para exame,
o mal poderia ter sido evitado com a multa e a devolução
do pecado naval. Talvez tenha sido culpa da época de pusilanimidade
que sucedeu aos idos de novembro, quando até as sombras dos
galões faziam os parlamentares mudar de rumo, impondo-se
estranho silêncio. Talvez tenha sido o opróbrio de
uma Câmara que aumentava, na mesma legislatura, os seus próprios
vencimentos, ante uma Nação faminta. Uma Câmara
sem respeito sequer às aparências. Talvez tenha sido.
Ou talvez não tenha sido outra coisa que simples esquecimento.
Seja como fôr, a compra do porta-aviões se fêz
sem protesto da Câmara ou do Senado e o animus esperneandi
de um pobre jornalista, sem outra tribuna (graças a Deus)
que a destas páginas, soou como um dobre de finados dentro
dos mares, abafado por todo um Oceano Atlântico de inconsciência,
justamente o alto preço que as sentinelas da Pátria
pagavam pelo volumoso brinquedo, por essa “Moby
Dick” de
aço, sonho dos seus dias de juventude, realidade e encanto
de sua velhice marinheira.
De que vale agora a voz de um membro
da Maioria gritar à Câmara que o custo do porta-aviões
não é de 800 milhões de cruzeiros como afirma
a Marinha, mas de 14 bilhões e meio de cruzeiros, ou seja,
mais de uma vez e meia todo o orçamento do Ministério
da Agricultura?
De
que vale agora um deputado do Govêrno afirmar aos seus pares
que a prodigalidade do Fundo Naval Brasileiro (somos uma nação
rica) mantém lá fora uma comissão fiscal para
acompanhar o reaparelhamento dêsse calhau oceânico,
comissão essa integrada em sua totalidade por 701 homens,
pagos em dólares, com direito à ajuda de custo, diárias,
vencimentos vantagens e outras regalias que a condição
de militares no exterior lhes assegura, inclusive o direito de trazer
automóveis na volta?
De
que vale insistir na tribuna parlamentar que um cozinheiro holandês
e mais oito civis estrangeiros servem a essa magnífica equipe
brasileira que assiste ao rejuvenescimento de um veterano da Segunda
Guerra Mundial, ao embalsamamento de uma inútil tetéiazinha
que, estratégicamente, estava morta, mas, rediviva, um dia
virá embasbacar os nossos sentimentos latinos, tão
interessantes, tão admirados pelos vendedores europeus de
sucatas? Somos uns perplexos.
De
que serve dizer, hoje, que grande parte dos gastos poderia ter sido
evitada, inclusive porque existem similares de fabricação
nacional para ônibus Mercedes Benz (um milhão e setecentos
e setenta mil cruzeiros) 18 cofres de aço (um milhão
e meio), 9 cadeiras de barbeiro (cento e cinqüenta mil cruzeiros),
duas miniaturas do Bicho (seiscentos e setenta mil cruzeiros), equipamento
para cozinha (sete milhões de cruzeiros), máquinas
de fazer café (um milhão de cruzeiros), máquinas
para sorvete (um milhão de cruzeiro), refrigeradores, geladeiras
domésticas, equipamento médico-dentário, colchões,
travesseiros, louças, sistema de espelhos para pouso, projetor
de cinema (isto realmente não se fabrica no Brasil), macas
para serviço de saúde e milhares de outras utilidades
para o inútil?
De que vale, agora, proclamar, deputado,
que o navio-aeródromo, o porta-bilhões, custará
cinco milhões de cruzeiros por ida, quase dois bilhões
de cruzeiros por ano?
De que vale afirmar que êle,
o Brucutu dos verdes mares de Iracema ou da sede permanente na Guanabara
(quanto mais tempo ficar parado, melhor), passará a ter número
nas listas telefônicas e será, inevitávelmente,
um prolongamento da Ilha das Cobras?
De
que vale, ó tribuno perdido no tempo e no espaço,
denunciar ao Brasil que, com o dinheiro aplicado nesse sonho de
almirante, o Brasil, êsse pobre Brasil, êsse desgraçado
Brasil, poderia comprar ou custear:
- 1 milhão e 625 mil toneladas de trigo.
- 8.660 caminhões nacionais.
- 13.000 km de estradas de rodagem.
- 30 meses de salários de tôdas as professôras
do Brasil.
- 52 milhões de sacos de cimento.
- Duas usinas siderúrgicas com a produção anual
de 120 mil toneladas de lingotes.
- Duplicar os investimentos da Petrobrás.
- Aumentar em 70% todo o patrimônio do parque ferroviário
brasileiro.
- 12 estaleiros
idênticos ao japonês que está sendo montado aqui.
- Valor idêntico a todos os empréstimos fornecidos
às estradas de ferro pelo BNDE de 1953 a 1957.
- Manter a Universidade do Brasil durante 10 anos.
- Importar 80 mil toneladas de papel de imprensa.
- Adquirir 2.600.000 toneladas de fertilizantes.
- Importar 29 mil tratores para agricultura.
- Construir outra Brasília.
AGORA,
o deputado julga preferível que afundássemos êsse
navio, perdendo quatro e meio bilhões de cruzeiros mal aplicados,
a votar mais verbas supérfluas que atingirão cêrca
de 14 e meio bilhões de cruzeiros. Verbas que se destinam
não apenas à recauchutagem do velho “Vengeance”,
rebatizado de “Minas
Gerais”,
mas também para atender aos homens que se encontram, por
causa dêle, na Europa e nos Estados Unidos. Sim, também
para os Estados Unidos, já seguiram em aviões fretados
a emprêsas comerciais, 250 oficiais e subalternos, somando-se
a êsses (que não têm culpa e apenas cumprem ordens)
outros 67 oficiais e marinheiros que fizeram curso de adestramento.
Tôda essa brava gente brasileira se prepara tècnicamente
para tripular os destróires que comboiarão o tesouro
flutuante do Brasil mendigo do Fundo Monetário Internacional.
MANDA
a verdade que se diga: nosso compadre Juscelino nada tem a ver com
a história. Talvez, no nascedouro, num daqueles seus repentes,
pudesse ter cortado o mergulho na fantasia que os almirantes planejavam.
Mas, Juscelino, como eu e você (você que está
na fila da carne), é civil. Civil não entende dêsses
terríveis engenhos de guerra. Um respeitável almirante
chega e diz que a segurança da Pátria necessita daquele
troço. No intímo, talvez Juscelino pense que a segurança
da Pátria necessite de outros troços. De uma lavoura
mecanizada ou de um sistema rodoviário ou de um parque ferroviário
mais decentes. Ah, mas o Almirante mostra o exemplo da Argentina.
A Argentina já tem um. Nós não temos nenhum.
Parece brincadeira de criançã. Zuzuca tem um porta-aviões,
papai. Tutuca não tem porta-aviões, papai. Pra que
diabo Tutuca quer um porta-aviões? Para que o maninho não
diga que tem um porta-aviões e êle Tutuca não
tem um porta-aviões.
TUDO
isso para o nosso júbilo sul-americano, para o agrado de
nossos respeitáveis lôbos-do-mar, de um mar brasileiramente
tranqüilo, cuja tranqüilidade poderá vir a ser
quebrada, mas jamais será garantida, numa guerra imprevisível
dos dias futuros, por êsses vagarosos Louvres navais que a
nossa vaidade - só ela? - comprou e a nossa ingenuidade financia,
enquanto as nossas crianças morrem por falta de remédios,
enquanto os nossos operários gemem por feijão, enquanto
nove mil pessoas esperam vez para se operar nos Institutos de Previdência,
enquanto a indústria luta por falta de divisas e o Brasil
respira fundo, conhecendo, pela primeira vez em sua história,
o espectro da fome.
TEMPO
virá em que o veremos sair, majestoso e melancólico,
da Guanabara onde ancorou por muitos anos êsse nosso patriotismo
mal orientado, o “Minas
Gerais”.
Voltará, desiludido, como eunuco dos mares, sem outra guerra
talvez (que as nossas se resolvem com flôres, tabefes, feijão
e xingamento), voltará aos estaleiros para o desmonte, daqui
a alguns anos. Não se saberá então, como não
se sabe agora, ao que veio. Ou algum historiador dirá que
antes mil vêzes a aventura doida de uma Brasília sólida
do que a fantasia líquida de uma Coisa perecível.
Um cronista imparcial há de dizer, por seu turno, que ao
menos uma estranha virtude teve, em sua estada neste pôrto,
essa dolorosa piada naval: serviu para mostrar ao Brasil que os
aviadores e os marujos brasileiros quase esqueceram a velha camaradagem,
apenas pelo direito de montar no dorso dêsse Cacareco flutuante.

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